Alguns silêncios não acolhem. Eles aguardam.
✍️ Introdução breve
Significado: “aquela que tem a voz doce”
Anahi se arrasta da cama, olha para a janela e
percebe o tempo nublado assim como seus pensamentos melancólicos. Vai ao closet,
busca por algo que a tire daquela sensação estranha de mesmice, mas nada lhe
chama a atenção. Sai dali e percorre a casa em busca de alguma coisa para fazer
— uma tarefa, uma distração —, porém tudo está no mesmo maldito lugar. “Que tédio!” - pensa.
Não
há novidade no que se conhece bem, porque a rotina abocanha tudo que está à
volta com ferocidade, deixando apenas a rotina. Segue para a cozinha, cheira o
ar com esperança inútil de que algo desperte seu desejo. No entanto, ali também
não há nada — só tristeza, mesmice e abandono. Ela tem desejo de algo
diferente, suculento aos olhos a ponto de revirar suas vísceras, arrepiar sua
espinha e que lhe traga emoção, como o aguar da boca diante de uma apetitosa
refeição; contanto, só lhe resta o vazio.
Continua
seu tour pela casa relativamente pequena cujas paredes incolores dão um ar de
sobriedade, estagnando numa simbiose as energias do ambiente e da própria
moradora. A alma inquietava-se pelo inesperado, como um viajante perdido no
deserto em busca de água, que lhe vibrasse todo o ser. Embora sentisse meio
deprimida, guardava a esperança de uma reviravolta. Não sabia nem quando, nem
como aconteceria, só a certeza de que haveria mudança.
Por
fim, senta-se na cadeira de balanço em frente à única janela ampla da casa e
espera o porvir. Enquanto aguarda um milagre, canta em voz doce, cheia de
melancolia, uma canção folclórica de tempos idos, na expectativa de aplacar a
própria solidão do agora, “sabiá lá na
gaiola fez um buraquinho, / voou, voou, voou, voou/ A menina gostava tanto do
bichinho/ chorou, chorou, chorou, chorou...” À medida que avança no canto,
balança os pés no ritmo como a consolar-se diante a tristeza evocada pela
canção.
Lá
fora, a natureza parecia angustiar-se também, ressoando nas árvores, no vento e
na grama a inquietude do interior de Anahi. A canção acaba. O silêncio retorna
e, com ele o frio com garras amedrontadoras, deixa tudo ao redor ainda mais
fúnebre, triste e desolador. As acinzentadas nuvens mascaram lenta e gradualmente
a chuva violenta que ameaça destruir o que estiver pelo caminho. O vento uiva
feroz e leva consigo fragmentos do canto de Anahi, espalhando-os pelo mundo,
antes que a tempestade os apaguem, ao mesmo tempo que balança a copa das
árvores de um lado a outro como numa valsa.
Bem
perto da casa de Anahi, no alto de um abeto, a fazer-lhe companhia, estava o amigo
corvo a crocitar lamúrias ao observá-la cantar, como se assim, concordasse com
a quietude indesejada da garota. O olhar da ave fixa nos dela, antigo, como se
guardasse mistérios longínquos e indizíveis e os dela de entendimento,
conectavam-se numa comunicação particular, sem barulho; porque há interações
profundas que não precisam de palavras ou sinais, são como espelho ao refletirem-se.
Logo
depois, uma lufada faz o corvo crocitar alto, a ecoar bravio no ar, um presságio
para a amiga. Levanta em voo ascendente...“cro-cro-cro”,
e desce fazendo círculos em volta da árvore “cro-cro-cro”. A atmosfera vibrava na agitação frenética das negras
asas longas a apontar feito dedos espectrais o advento da mudança. O coração
até então lento de Anahi, acelera em antecipação à novidade que surgia. Um
vento forte a rasgar a mata golpeou de forma violenta a frágil porta como um
convidado, chacoalhando portas e janela. Vruuuuuu!,
O estrondo repentino reverberou no ambiente e atravessou seu corpo como um
choque súbito, provocando-lhe um arrepio da cabeça aos pés. A respiração ficou
suspensa, enquanto o relâmpago cortava o céu, ao mesmo tempo em que produzia
sombras retorcidas no interior da casa devido aos flashes de claridade. Enfim o
inesperado se fez presente.
Anahi
nem teve tempo de analisar os sinais que ocorreram, porque o antigo gramofone,
sozinho, irrompeu em Tocata em Ré menor
de Bach. O som do órgão imponente e arrebatador, belamente executado, fluía
por todo o ambiente. A inércia enfim acabou. O pulso, antes desanimado da
solitária mulher, incorporou a melodia completamente. Tal qual um acompanhante
invisível, o corpo dela ajusta-se ao ritmo imponente, como se conduzido por
experientes mãos e todo seu ser dramatiza com pés e braços, volteios e galopes
a cadência sonora do órgão. Ela estava totalmente cativa em um palco particular
onde o corvo, as árvores, o vento e a própria natureza lhe saudassem pela dança
executada. Anahi experencia através da música e da própria pele o reacender da
chama. A música para, mas a respiração e o peito continuam a mover-se.
Sentia-se viva outra vez. A boca encheu-se de água em expectativa.
A
tempestade enfim chegou indiscreta e feroz sobre o lugar feito um cão de guarda
a proteger a moradora de algum invasor. Batidas fortes na porta da frente prendem-lhe
a respiração. “Quem será?” pensa
imóvel, sem abrir a porta. O silêncio do outro lado respeita e aguarda sua
decisão. A ventania se agita pelos galhos que batem nas janelas como unhas a
riscar o vidro ansiosas. Anahi apruma-se e insegura vai em direção à porta, mas
antes procura com os olhos o pássaro agourento como a certificar-se que tudo
era real. De maneira impaciente a ave abre e fecha as asas como a refletir a
pulsação acelerada dela, instigando-a rumo ao que tanto almejava: o inesperado.
Tum...Tum...As batidas são mais insistentes. A
porta se abre devagarinho, um vento gelado com pingos grossos de chuva entram
com a pequena surpresa. Anahi está perplexa, com a mão diante da boca, esconde
um pouco a surpresa que a atinge.
— Por que não abriu a
porta? Está chovendo e frio lá fora
- diz a pequena invasora.
Anahi
emudece diante da pequena a sua frente.
— Você está bem? Parece que viu um fantasma. – fala a menina com sua voz infantil.
— Moça, a tempestade pegou a gente no meio do caminho... a gente, eu e minha mãe, pode ficar aqui? Tem muita água. – insiste.
O momento é interrompido pelo crocitar longo e alto do corvo que assusta a criança, mas desperta Anahi da própria mudez. A ave parecia alertá-la de que deve fazer algo. Então com voz doce e cadenciada pergunta à inocente garota.
— É só vocês duas?? – finge um espanto para uma criança que concorda.
— Então entre pequenina, vamos nos aquecer, a lareira está na outra sala. – Estende com graciosidade a mão para a criança, que antes olha para a mãe que se aproximava e consente com a cabeça, dando um passo para dentro da casa com olhos maravilhados com o calor, conforto e beleza do lugar.
Anahi olha com satisfação a paralisia hipnótica da menina que agora vive em sugestivo bem-estar.
Do lado de fora a mãe é tomada pelo mais puro horror ao ver a mudança no comportamento da filha, que agora tem olhos opacos alheios ao mundo.
Ela joga o que tem nas mãos no chão e tenta correr para alcançar a filha que está presa dentro de uma nuvem translúcida com uma figura que a olha desdenhosamente. Ela grita, mas a filha não escuta. Seus pés correm por um caminho de pedras que nunca acaba, como se fosse uma esteira. Não sai do lugar. As árvores retorcidas esticam seus galhos como barreiras naturais. Seus pés doem. As pedras ficam pontiagudas e escorregadias. A chuva se intensifica. O vento a golpeia para trás. O corvo assiste a tudo placidamente.
A mãe cai angustiada no chão, mas não para, rasteja o corpo em pedras que vão lhe rasgando o vestido e a carne, suas mãos agarram em desespero o que pode servir-lhe como impulso, ao mesmo tempo em que grita histericamente:
— Devolva a minha filha!.... devolva minha menina.... devolva, devolva, devolva.... DEVOLVAAAAA.... DEEVOLVAAAAA....
Anahi vê a cena com calma, abre um sorriso meigo que não chegam aos olhos frios e vidrados. Passa com gentileza a mão pelos cabelos da menina, enquanto lentamente a porta do lado de fora vai se fechando, deixando como lembrança apenas aquele sorriso de promessas.
A menina sente sua cabeça zonza, uma vontade irresistível de comer algo quente e depois dormir. Tudo aumenta seu desejo quando vê a lareira com tapete e almofadas perto do fogo; um sofá espaçoso com cobertores e próximo uma mesa com quatro cadeiras. Sobre a mesa havia uma panela fumegando com um cheiro delicioso de sopa, torradas, copos e uma jarra de água. O luar lá de fora mescla-se à luz do fogo, criando um ambiente mágico. Mas a criança sente que algo está estranho. Não estava chovendo? Estava tudo tão escuro agorinha...ela e sua mãe procuravam abrigo... mãe?
Olha para as mãos que seguram as suas. Levanta a cabeça e vê a mãe a olhando de volta com sorriso de boneca, fixo, estranho...
— Mãe, a gente não estava viajando? O carro atolou por causa da chuva.... e... não me lembro... eu sonhei?
— Como assim, amor, olha o lindo luar na janela... venha... não estávamos viajando... estamos em casa, você sonhou..
Anahi conduz a catatônica garota mais para dentro e leva-a para perto da janela que vibra por causa dos ventos fortes e da chuva intensa. Lá fora, a mãe percebe a movimentação. Impotente observa a filha olhando através dela, como se fosse ar, apontando para coisas que só ela enxergava... Seu coração gelou, suas entranhas reviraram quando ao se fixar na misteriosa figura viu-se refletida.
Uma nova onda de ânimo, desespero, ânsia de chegar mais próximo, a fazia rastejar descoordenada no chão... já não era dona de si... grita, puxa os cabelos, cava o chão lamacento com mãos em carne viva, como se pudesse cavar um buraco até o lado de dentro. Já não é dona de si.
Lá dentro, a criança senta-se na cadeira e começa a comer a deliciosa sopa que a mãe mecanicamente lhe coloca na boca.
Uma colherada, as pernas sentem espasmos, ficam mais leve... pula na mesa e ri.... que engraçado, meus pés e pernas afinaram.... olha para a mãe que sorri maravilhada.
Segunda colherada o caldo está suculento. O corpo se contrai e penas negras cobrem toda a barriga.
Terceira colherada. Os braços dão lugar a asas pretas.
Penúltima colherada. O rosto contrai todo, sente um aperto no peito. Olha para mãe e ela está batendo palmas dizendo que estou linda.
— Grrrrrrr.... (que som é esse? Cadê minhas palavras???)...
Última colherada. O mundo por instantes apaga.
Lá fora a mãe paralisa horrorizada com a cena. Já não se importa em olhar para a criatura. Só para o pequeno corvo que sai pela janela e vai fazer companhia ao outro que desde o início só observava.
Dois corvos e nenhum deles lembrava o próprio nome.
***
Anahí encerra-se onde a palavra já não é suficiente. Resta o silêncio, a memória e a certeza de que algumas histórias não pedem redenção — apenas que sejam lembradas.
***
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