Duas vozes, duas verdades, e uma floresta onde ninguém sai ileso
✍️ Introdução breve
Esta é uma releitura adulta de Chapeuzinho Vermelho construída a partir de dois pontos de vista.
As mesmas cenas, os mesmos fatos — narrados de maneiras distintas. Entre versões, percepções e silêncios, a história se desloca do conto conhecido para um território mais inquietante, onde a verdade não é única e a violência não pede absolvição.
Era uma vez…
Nada disso. Vou contar esta história do meu jeito, porque ela aconteceu de verdade — e foi absurda.
Na vila, todos me chamam de Chapeuzinho Red. Os tempos estão sombrios, e adolescentes têm desaparecido na floresta. O vermelho chamativo — vermelho de sangue — é fácil de identificar no meio do mato, caso seja preciso organizar uma busca.
Muita gente já se deu mal por causa dessa capa. A Bia, vizinha do quarteirão de cima, resolveu namorar o Toninho e esqueceu de tirá‑la. O pai foi atrás e pegou os dois em flagrante. Preciso dizer como terminou? A história virou assunto durante o ano inteiro.
“Alone in the hills / No sorrow or pity / For leaving…”
— Que susto, mãe — digo, depois que ela arranca meus fones.
Ela não se explica.
— Arrume‑se logo. Preciso que leve bolos, biscoitos e doces para sua avó. Ela recebeu muitas encomendas — diz, sem respirar. — E volte antes de escurecer. Andam dizendo que tem muito forasteiro por causa do festival de verão.
— Tudo bem. Mas eu quero algum agrado por isso.
— Tire dez reais do meu lucro e traga o resto inteiro. Ande, você vai se atrasar.
Já vestia jeans e blusa. Pego a capa, coloco os fones novamente e sigo para a casa da vó.
“I feel / I am not your rolling wheels / I am the highway…”
Não sou mais criança para cantar pela estrada afora, penso, mas continuo.
É no meio do caminho que encontro Chato pra caralho. Nunca superou a paixonite por mim. Anda dizendo pela vila que vai me namorar, custe o que custar. Tadinho dele, gente.
— E aí, Red, indo pra vó?
— Pra minha, sim.
— Posso ir junto? Ouvi dizer que o atalho anda perigoso.
— Não. A gente não tem mais nada. Desencana. Vou pela estrada principal; deve passar algum ônibus.
O jeito como ele me olha não me agrada. Um olhar errado, atravessado — daqueles que não se esquecem.
Finjo seguir para o ponto, mas espero ele se afastar e o acompanho à distância pelo atalho. Lupino resmunga enquanto caminha. Para de repente. Pega uma mochila escondida entre as árvores — como se já a esperasse ali. Antes de colocá‑la nas costas, confere o conteúdo: uma corda, uma faca, fita adesiva.
Meu estômago afunda.
Ele fecha a mochila com cuidado e segue mais rápido.
Começo a montar cenários na cabeça. Todos ruins. Não é difícil ligá‑lo aos ataques que vinham acontecendo. Às meninas que ninguém mais encontrava.
Comigo, não.
Recolho do chão um pedaço de madeira firme. Avanço com cautela, sem fazer ruído, garantindo que estamos sós. Quando ele alcança a curva mais fechada da trilha, aproximo‑me num impulso e golpeio com força a base de seu crânio.
Ele cai sem som. O sangue vem rápido.
Corro.
Antes de entrar na casa da vó, confiro o rosto no reflexo da porta. Nenhuma mancha. Cumpro o recado da minha mãe, como se o mundo ainda estivesse inteiro.
Dias depois, o corpo de Lupino é encontrado, já em decomposição. Fico chocada — como todos na vila. A violência anda fora de controle nos nossos tempos.
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“Esse olhar mais sombrio não é exclusivo deste conto — outras histórias também revelam esse lado oculto, como exploramos em [outras reflexões do blog].”https://www.arquivodoimaginario.com/2026/05/toda-historia-tem-uma-sombra.html
👉 Aqui você coloca o link: Toda história tem uma sombra
Introdução: Você já parou para pensar na história do Lobo Mau do ponto de vista dele? Nesta versão dos fatos, revisitamos o clássico conto sob uma nova perspectiva, questionando quem realmente é o vilão.
Era uma vez…
Para com isso. Começo de história é coisa pra ovelha — e eu não sou uma delas.
Moro na divisa entre a floresta e a vila. Um lugar cheio de gente problemática. O povo se dói por qualquer coisa, transforma tudo em drama. Olha o caso do Toninho, meu primo: foi pego com a Bia porque estavam ficando. O pai apareceu, fez escândalo — por causa da maldita capa. Eu sempre disse que aquilo não ia prestar. Fantasia dá nisso. No fim, o pai quis reparação por casamento, o Toninho topou todo animado, a Bia recusou. O velho surtou. A vila inteira falou disso por semanas.
— Lupino, camarada, fiquei sabendo que você vai lá pras bandas da outra vila — disse o Hunter. Nome mais idiota impossível.
— Pretendo não.
— Pensei que fosse. Ouvi dizer que a Red vai visitar a avó… e como vocês andavam juntos até esses dias…
Tentando plantar coisa na minha cabeça.
— Pensou errado. A gente não andava. Ainda anda.
— Se você diz… também fiquei sabendo que o Porkito Rock anda se engraçando pra cima dela. Inclusive fez uma encomenda grande pra mãe dela, mas vai buscar na casa da avó, pra passar um tempo com ela.
Disse isso e saiu, satisfeito demais.
Então não é só caloteiro — é talarico.
Red é a garota mais marrenta da vila. Difícil, sim. Bonita também. A gente combina, mesmo ela fingindo que não. Eu sei como essas coisas funcionam. Já deixei claro pra todo mundo. Quem se meter aprende.
Antes, deixo minha mochila no pé da árvore. Depois pego.
De longe vejo a capa vermelha avançando pelo caminho, os fones no ouvido. Canta baixo, distraída.
— E aí, Red. Indo pra casa da vó?
— Pra minha, sim.
— Posso ir junto? Ouvi dizer que o atalho anda perigoso.
— Não. A gente não tem mais nada. Desencana. Vou pela estrada principal; deve passar algum ônibus.
Vira as costas e vai.
Eu sorrio. Sempre assim. Difícil, mas certa. Ela precisa de alguém atento. Alguém que cuide. Que organize as coisas.
Caminho até a mochila, confiro se está onde deixei e sigo pelo atalho — tranquilo, como sempre — “pela estrada afora eu vou bem sozinho...”
Que sensação estranha…
Ai.
Tudo escurece.
🕯️ Encerramento / Nota final
Lidas juntas, as duas vozes não se anulam.
Elas se tensionam, se contradizem e permanecem em aberto.
O que resta não é uma resposta definitiva, mas a dúvida — e o desconforto de perceber que, às vezes, a história muda menos do que o olhar de quem a conta.
“Se você gosta de releituras que exploram o lado mais obscuro das narrativas, vale conferir também outras análises publicadas aqui no blog.”
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Não é permitida a reprodução, distribuição ou adaptação, total ou parcial, sem autorização prévia.
Esta história encontra-se em desenvolvimento e pode sofrer alterações ao longo do processo de escrita.


Que maravilha de texto, recado dado e recebido! Mulheres, fiquem atentas!👏👏👏👏👏
ResponderExcluirNa floresta de hoje é o único jeito.
ExcluirQue releitura incrível! 👏🏾
ResponderExcluirFico tão feliz ao ler isso!!!
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