terça-feira, 8 de setembro de 2026

Poema: A distopia de um coração quebrado

 


A distopia de um coração quebrado

 

Era uma vez um reino embotado
Onde tudo era controlado:
Gestos, palavras, pensamentos
Presos em escuros armários.

 

Cores não eram aceitas ali.
Vivendo todos em cinza cromado
Evitando todas as formas de sentir
Louvando o medo como sagrado.

 

Os anciãos de togas ultrapassadas
Vomitavam regras com línguas pegajosas,
Enquanto aparavam asas indesejadas
De amores condenados por palavras enganosas.

 

Mulheres e homens acorrentados
Numa orquestra de notas dissonantes,
Enquanto os anciãos temiam a força
De notas iguais, juntas, ressonantes.

 

Mas essa verdade universal era encoberta
Mesmo que para isso se usasse em dias chuvosos
Um céu com teto a fim de se evitar o óbvio:
Arco-íris irrompem após a tempestade.


Há raízes que nascem em meio ao concreto
O amor não aceita rótulo ou decretos
Posse ou fronteira, fachadas ou credos.
Muito menos que lhe digam o que é certo.

 

Assim conto a história de Ricardo e Roberto
Dois jovens soldados no mesmo deserto
Separados pelas muralhas do decreto
Que ousaram se amar em signos secretos.

 

Uma vez, em batalha sangrenta,
Separados em trincheiras opostas,
Sofriam a ausência do amor que os alimentava,
Ocultando-o sob regras impostas.

 

Mas um dia em meio à chuva
pousou perto de Roberto um corvo
Que, contrariado com a lei injusta,
Prometia levar consolo
Em bilhete a Ricardo

 

À noite, na penumbra, no frio,
Cortou o céu o escuro pássaro
Com uma carga mais valiosa que ouro
E mais condenada que pecado

 

Ao cisne Ricardo,
“As ruínas do meu coração eram
Só tristeza e desespero
Até te conhecer, meu segredo
Volta para mim, meu lar
Te perder eu tenho medo.”

 

O corvo voltou com a resposta
Entregando ao outro companheiro:

 

Ao cisne Roberto,
"As ruínas do meu coração eram
só tristezas, deserto e desespero
Até te conhecer, meu luzeiro
Sou teu lar, e você, meu espelho.
Discreto, meu amor verdadeiro.”

 

Na manhã seguinte, o corvo voltou,
mas vinha em voo desajeitado.
As penas negras vinham manchadas...
Pelo sangue de um amor denunciado.

 

Descobriram os bilhetes ocultos
Sob a armadura de um dos soldados.
E não os julgaram por mentiras,
Roubos ou atos condenados.

Seu único crime perante a lei
Foi chamar de lar o homem amado.

 

Gênero: Terror Sobrenatural | Terror Rural | Mistério | Tragédia Familiar

Classificação: Maduro

Autoria: @cqduarte_autora

Wattpad: https://www.wattpad.com/myworks/415895027-distopia-de-um-cora%C3%A7%C3%A3o-quebrado

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