terça-feira, 5 de maio de 2026

Aldrick: Entre a culpa e o desejo

Um dark romance psicológico sobre trauma, culpa e violência simbólica.


Introdução Breve

Esta história mergulha em aspectos mais sombrios da experiência humana, explorando relações complexas, traumas e escolhas difíceis.

Recomenda-se a leitura apenas por quem se sente confortável com narrativas intensas e emocionalmente profundas. (contém gatilhos)

(Esta história está sendo construída aos poucos, acompanhando o próprio ritmo de suas revelações.)




PRÓLOGO

Sento-me na mureta do terceiro pavimento da escola, o concreto frio vibrando levemente sob o campo de contenção que delimita a área, encosto as costas na coluna de granito e observo a algazarra do recreio por todo o pátio. Ele é dividido por áreas onde alunos de cada etapa têm o próprio ambiente — faixas invisíveis que mudam de cor quando alguém ultrapassa o limite — para evitar bagunça e brigas.

Nada me distrai. Nem mesmo os alunos da sala jogando bolas aéreas com sensores de impacto, que devem ser interceptadas por estilingues com bloqueadores para a marcação de ponto. Quem fizer o acúmulo de três rodas de diferença vence. Sou muito bom nesse jogo.

Minha cabeça não para. Já faz três anos que minha mãe nos deixou…

Meu pai tinha razão. Fomos abandonados. Trocados por um outro amor, ela foi embora sem se importar que sentiríamos sua falta. O que fiz de errado para que quisesse ir embora? Fiquei muito tempo nos treinos? Minhas notas? Não, elas são boas, eu me destaco. E o que falar da Debbie, sua companheira inseparável. Viviam juntas. Ela nem pensou em mim ou na Debby (diminutivo carinhoso dado a minha irmãzinha)
.
Ainda escuto os gritos — Debby desesperada, meu pai tentando convencê-la a ficar. Eu acordei no meio daquilo. Parei no topo da escadaria de mármore iluminada por luz automatizada que reagia ao movimento, a tempo de vê-la: desalinhada, descalça, sem nada nas mãos… saindo pela porta de madeira maciça e entrando num carro.

Porra.

Problema dela.

Que morra se quiser.

Meu pai nos contou sobre o destino dela. Os absurdos que ele teve que escutar. Mas pelo menos ele decidiu ficar.

Quer viver com aquele homem do Setor Norte II?
Que viva. Já sofremos demais por ela.

O velho nunca mais foi o mesmo. E agora é quase insuportável viver com ele. É o tempo inteiro a mesma ladainha:
 
"Aldrick, você tem que ser o melhor.
Engula esse choro.
Ela não merece nossas lágrimas.
Aquele povo é inferior.
Vamos provar isso".
 
Vejo se aproximando, Erick Karrel e Manfred O’hara, meus amigos desde a infância. Somos conhecidos por sempre nos defendermos em brigas e em quaisquer situações. Eles se aproximam.  Manfred, com seu jeito galanteador, cabelos e olhos castanhos claros me oferece um cigarro. Recuso. Não preciso de mais esse problema.

— Só gente fraca precisa disso. – alfineto.

Ele, como sempre, ignora.

— E aí, Aldrick… a Marjorie quer saber se você vai na festa sábado — pergunta Manfred.

— Não. Meu pai marcou treino com o professor de luta mista. Hoje será mobilização e derrubada. Ainda não estou bom o bastante.

— Como assim? Você derrota todos das três escolas daqui… — Manfred insiste — sem contar o intercâmbio esportivo entre os setores. Segundo lugar não é uma má colocação.

— Não é suficiente.

— Você perdeu por pouco… aquele cara do Setor Norte II, o Logan, luta bem desde que se entende por gente. Você não perdeu para um lutador fraco, foi para um dos melhores — diz, querendo me animar.

Meu maxilar trava.

— Segundo lugar é para fracassado. Eu não sou um.

Encerro.

Erick, com seus cabelos pretos cacheados e olhos azuis, o mais quieto de nós — o tipo que decifra código antes de entender gente, solta de um jeito despretensioso:

— Fico pensando se seu pai vai deixar você viver quando crescer, Aldrick. — ele aguarda que eu diga algo.

Passo a mão sobre o blazer preto com listra vertical dourada, que pulsa discretamente ao reconhecer minha identificação de setor, identificando-me como do Norte I.

Neste momento, o equipamento holográfico surge em ângulo de 360 graus — projeção limpa, som controlado que silencia automaticamente o ambiente — para que todo mundo veja e ouça que acabou o recreio.

No pátio, vejo Debby com as amigas. Rachel, Samira… e, misturadas a elas, garotas do maldito Setor Norte II. Azul e dourado. Aquela roupa ridícula — avanço ao encontro de minha irmã e códigos visuais liberam acesso a área da Fase I, tão diferente da minha, a penúltima, Fase 3.

Caminho até ela.

Debby me vê e corre até mim. Seus olhos verdes brilham de raiva. Seus longos cabelos ruivos num lindo penteado balançam conforme se movimenta.

— Por que você está com eles? — falo baixo.

Ela olha para trás antes de responder, não se importa em responder a minha pergunta. Ao contrário faz a dela em expectativa:

— Você não acha… que a menina do Setor II é mais bonita do que eu?

Não olho.

— Não. Eles são inferiores em tudo. Vamos.

Ela não se move.

— O que foi?

— Eles estavam rindo… — a voz falha — dizendo que você é perdedor, que o Logan te venceu fácil… que os rapazes de lá são melhores…

O mundo perde o foco, mas me controlo.

— Deixa que falem. Eu resolvo isso depois.

Puxo seu braço, mas ela resiste.

— Eu tenho que ir embora também, igual a mamãe? Eles me insultam, dizem que são melhores, mais bonitos… e você não faz nada. — ela respira fundo — Sabia que aquela menina conhece a mamãe? Diz que conhece o homem com quem ela está… são parentes…

Algo vira dentro de mim.

Não penso. Não escolho.

Só vejo movimento — um grupo vindo em direção à sala, risadas ainda ecoando na minha cabeça.

Qualquer rosto serve.

Avanço.

Seguro a primeira pessoa que passa.

Por um segundo, nenhum sistema ou alguém reage. Nenhum alerta. Nenhum bloqueio.

O choque paralisa todos.

Uso isso.

Puxo com força, quase a derrubando, já tirando da algibeira a corda — item que não deveria ter passado pelos filtros da escola, mas carrego porque terei aula de defesa e captura. Enlaço o corpo dela e a prendo na coluna do coreto.

Ela não reage.

Só me olha.

Retiro o bastão também e o levanto.

Três golpes.

Rápidos.

O som é seco demais para um ambiente que deveria amortecer impacto.

Ela treme, mas não grita.

Aproximo meu rosto do ouvido dela.

— Diz ao seu povo… e à minha mãe… que eu desprezo todos vocês.

Solto.

Viro as costas e saio.

Atrás de mim, gritos. Correria. Alguém pede ajuda.

Ouço quando ela desmaia. O barulho de seu corpo caindo no chão.

Paro por um segundo.

Eu sei o que fiz.

E continuo andando, direto para a diretoria.
 

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Esta obra é de criação original e está protegida por direitos autorais.

Esta história encontra-se em desenvolvimento e pode sofrer alterações ao longo do processo de escrita.


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