O lado sombrio dos contos de fadas, de Karin Hueck
FORMATO: Livro
A autora analisa versões antigas e releituras ao longo da história, mostrando como cada época moldou
os contos de acordo com seus valores sociais e culturais.
ANÁLISE CRÍTICA:
O imaginário dos contos de fadas
Acredito que não exista, no mundo
inteiro — salvo entre povos isolados — quem nunca tenha ouvido ou lido uma
história da carochinha. Ou, mais especificamente, uma garota que, em algum
momento da infância, não tenha desejado ser uma princesa das histórias
infantis, sempre salva por um belo príncipe encantado. Essa imagem foi ainda
mais reforçada ao longo dos anos pelas produções cinematográficas da Walt
Disney, que cristalizaram os contos de fadas como narrativas doces, mágicas e
essencialmente infantis.
As origens esquecidas dessas histórias
Entretanto, o que a grande maioria
desconhece é a origem dessas histórias. Os contos de fadas não nasceram como
entretenimento para crianças, mas atravessam lendas folclóricas e tradições
culturais de diversos povos.
Um exemplo emblemático é o conto da
Cinderela, cuja base encontra-se em uma antiga narrativa chinesa sobre uma
jovem maltratada pela madrasta. Nessa versão, ao ir à festa da primavera, ela
perde seu sapatinho, que mais tarde é encontrado por um guerreiro que a procura
e com quem acaba se casando. É dessa história, inclusive, que surge a ideia de
Cinderela ter pés pequenos — característica ligada ao costume chinês ancestral
de quebrar e enfaixar os pés de meninas a partir dos três anos de idade para
atingir o tamanho considerado ideal.
Assustador, não? Ainda assim, é
preciso compreender tais práticas dentro de seus contextos históricos e
culturais, sem julgamentos anacrônicos.
O impacto da leitura de Karin Hueck
É por isso que a leitura de O lado
sombrio dos contos de fadas, de Karin Hueck, se mostra tão impactante. A
autora nos conduz por temas delicados, indigestos e brutalmente humanos
presentes nas versões originais dessas narrativas.
Trata-se de um lado nada infantil — e
definitivamente inadequado para crianças — que revela o verdadeiro monstro
escondido sob a pele das histórias: o próprio ser humano.
Chapeuzinho Vermelho e a violência simbólica
A análise do conto de Chapeuzinho
Vermelho chamou-me especial atenção. Além de ser minha história preferida,
foi também a principal inspiração para a escrita de uma releitura, disponível
aqui no Blogger e no Wattpad, intitulada “Versão dos fatos: Chapeuzinho Red”.
Mas o que justifica essa preferência?
A negligência explícita com que a
personagem é tratada desde o início do conto, quando a mãe permite que uma
criança atravesse sozinha uma floresta, expondo-a a perigos evidentes. Ao ser
abordada por um estranho, Chapeuzinho vivencia situações de abuso e violência
que, embora simbólicas, dialogam diretamente com experiências muito reais.
Em minha releitura, essa Chapeuzinho
não espera que o mal se concretize: ela reconhece o perigo, revela também o seu
próprio lado sombrio e anula quem lhe deseja mal.
Quantas chapeuzinhos, ainda hoje, não
são silenciadas ou mortas por não saberem identificar ou enfrentar seus lobos?
As diferentes versões do conto
Hueck nos conduz, então, pelas
possíveis primeiras versões do conto, como a mais bruta, atribuída a Achille
Millien; a adaptação de Charles Perrault, voltada para a corte francesa; e a
versão dos irmãos Grimm, direcionada ao público infantil.
Soma-se a isso a releitura promovida
por Walt Disney, que aparou as arestas da violência e substituiu-as por
mensagens de superação, magia e encantamento.
Releituras, contextos e novos olhares
O que se evidencia é que cada época
relê os contos de fadas de acordo com seu próprio contexto. Atualmente, não
dependemos mais apenas do cinema para acessar essas narrativas.
Diversas versões, releituras e
roupagens recontam essas histórias, muitas delas não mais destinadas às
crianças, mas voltadas ao público adulto, resgatando a brutalidade das
narrativas orais originais e modificando seus finais conforme a intenção de
cada autor.
O lobo, o lobisomem e o controle social
Hueck nos mostra que muitas dessas
histórias jamais tiveram finais felizes como os que conhecemos hoje. Mas faz
isso para desestimular ou retirar qualquer esperança de superação? Pelo
contrário.
A autora nos convida a dialogar sobre
a simbologia dos contos e sua verossimilhança com o mundo real. Como ela
própria afirma:
“Houve épocas em que o mundo real era mais parecido com o mundo fantasioso
dos contos de fadas. Por isso, os detalhes das narrativas são importantes —
eles não podem ser vistos como fatos, mas como representantes de um pensamento
e de uma forma de enxergar a realidade.”
Outro ponto interessante apresentado
no livro é a origem do lobo, associado à lenda do lobisomem. A tradição oral
foi responsável por perpetuar essa figura híbrida em histórias nas quais as
pessoas realmente acreditavam, sobretudo durante o período da Inquisição. Esse
aspecto evidencia que o lobo já era compreendido como um ser violento,
despudorado e malicioso.
Relatos indicam, inclusive, que sua
identidade nem sempre era fácil de ser descoberta, o que justifica o desfecho
moralizante que Perrault atribuiu ao conto, voltado especialmente às meninas.
A releitura como resposta contemporânea
Não se pode ignorar, contudo, que
esse ensinamento moral também funcionava como mecanismo de controle social.
Como destaca Hueck, a punição da menina ocorre não pelo crime do lobo, mas pela
desobediência da vítima.
É a partir desse silenciamento da
Chapeuzinho nas versões mais antigas que surge minha releitura “Versão dos
fatos: Chapeuzinho Red”, publicada em:
https://www.arquivodoimaginario.com/2026/04/versao-dos-fatos-chapeuzinho-red_18.html
Nela, considero o contexto atual, em
que cada vez mais garotas aprendem a não se deixar enganar por lobos
disfarçados, escolhem suas próprias capas — e decidem como e quando caminhar
pela floresta.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Assim, O lado sombrio dos contos
de fadas mostra-se uma leitura reveladora, didática e, sobretudo, honesta.
Ele nos lembra que o passado nunca foi feito de tempos bons ou utópicos — era
tão perigoso quanto o presente.
Cabe a nós, hoje, preparar crianças e
adolescentes para reconhecerem o mal quando ele se apresenta, ainda que venha
vestido de conto, capa vermelha ou história infantil.
P.S.: E você, qual conto infantil é o seu preferido? Conte nos comentários — que eu te revelo o lado sombrio dele..
Referência Bibliográfica: O lado sombrio dos contos de fadas: a origem sangrenta das histórias infantis / Karin Hueck. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2023.
Leia também: Resenha crítica: "A meia-irmã feia"
© Todos os direitos reservados à autora.
Esta obra é de criação original e está protegida por direitos autorais.
Não é permitida a reprodução, distribuição ou adaptação, total ou parcial, sem autorização prévia.
Esta história encontra-se em desenvolvimento e pode sofrer alterações ao longo do processo de escrita.
Nenhum comentário:
Postar um comentário