quarta-feira, 20 de maio de 2026

Conto sombrio - A casa dos ecos - Cleberson Oliveira

ARQUIVO DO IMAGINÁRIO
leituras, narrativas e investigações do sombrio 


Título: A CASA DOS ECOS
Autor - Cleberson Oliveira 

Introdução: Hoje trago a obra A Casa dos Ecos, de Cleberson Oliveira. Uma narrativa que transita entre o horror psicológico e o sobrenatural, explorando memória, culpa e isolamento. 

(Ilustração: arquivo pessoal do autor)


PRÓLOGO


A primeira voz

Antes que a casa aprendesse a chamar pelo nome dos vivos, ela já sabia guardar silêncio. Era uma construção antiga, fincada nos arredores de São Gabriel como se tivesse sido erguida não sobre a terra, sobre alguma coisa enterrada fundo demais para ser lembrada com clareza. De longe, parecia apenas mais uma residência esquecida pelo tempo, com as paredes descascadas, as janelas fechadas como olhos cansados e o telhado vergado sob o peso de muitos invernos. Para quem se aproximava o bastante, havia algo errado em sua quietude e não era abandono. Era uma sensação de espera.


O vento minuano passava por suas frestas e arrancava assobios longos da madeira, fazendo as dobradiças gemer como se a casa respirasse com dificuldade. À noite, quando a estrada ficava vazia e os campos se cobriam de uma neblina baixa, era possível ouvir ruídos vindos de dentro: passos onde não havia ninguém, batidas leves nas paredes, o arrastar de móveis que jamais mudavam de lugar.

Os mais velhos diziam que aquilo era coisa de casa velha e os mais supersticiosos faziam o sinal da cruz. Porque algumas casas não apodrecem quando são esquecidas,elas amadurecem e alguns acreditam até que ganham vida.

Naquele tempo, antes de Samuel, antes do Opala cruzar a estrada trazendo de volta um homem quebrado, antes que o nome de Tio Zagga voltasse a ser sussurrado como uma praga, a casa ainda não tinha tomado sua forma completa. Ela era apenas um corpo faminto, um casco vazio, um lugar onde memórias ruins encontravam abrigo. Ainda não possuía método e nem possuía linguagem.

Até a primeira voz. A menina não devia ter entrado ali e ninguém jamais soube seu nome com certeza. Alguns diziam que se chamava Helena. Outros juravam que era Clara. Havia quem garantisse que era apenas uma criança sem família, uma pequena sombra que aparecia nas redondezas pedindo água, pão ou um canto qualquer para escapar do frio. Com o passar dos anos, como acontece com toda tragédia que ninguém teve coragem de registrar, seu rosto se perdeu. Seu nome se desfez e sua história virou rumor.

Naquela tarde, o céu havia escurecido antes da hora. As nuvens se juntavam pesadas sobre os campos, e o cheiro de chuva vinha misturado ao odor úmido do mato crescido ao redor da propriedade. A menina apareceu no portão enferrujado carregando nos braços um embrulho pequeno, talvez uma boneca ou um pedaço de pano velho que para ela valia como companhia. Tinha os pés sujos de barro, os cabelos grudados no rosto e os olhos de quem já havia aprendido cedo demais que o mundo podia ser indiferente.

Ela empurrou o portão sem medo e o ferro rangeu, e por um instante, tudo silenciou. A menina subiu o caminho de pedras irregulares com cuidado, olhando para trás algumas vezes, como se esperasse ser chamada de volta por alguém. A chuva começou fina, costurando o ar com linhas frias, e ela correu até a varanda e a porta da frente estava entreaberta.

A casa a recebeu sem pressa.

Lá dentro, o cheiro era de madeira inchada, mofo e cinza antiga. O chão reclamava sob seus pés pequenos. Em algum lugar, a água pingava dentro de um balde invisível, marcando o tempo com uma paciência cruel.

Ping.

Ping.

Ping.

— Tem alguém aí? — perguntou a menina.

Sua voz bateu nas paredes e voltou menor.

Alguém aí...

Aí...

Aí...

O escuro do corredor parecia mais grosso do que deveria. Não era apenas ausência de luz, tinha algo maior, era uma presença. Algo parado entre os cômodos, observando-a sem olhos e sem corpo.

A menina apertou o embrulho contra o peito.

— Eu só queria esperar a chuva passar.

A casa ouviu e gostou daquela frase, era assim que quase todos começavam. Ninguém entrava em uma armadilha acreditando que ela era uma armadilha. Entravam porque a porta parecia aberta ou porque a noite caía rápido. A menina atravessou a sala. Havia móveis cobertos por panos, retratos tortos nas paredes e um rádio antigo repousando sobre uma mesinha, com a madeira escura marcada por riscos profundos. Ele não estava ligado a tomada alguma, quando ela passou por perto, e mesmo assim produziu um estalo baixo.

A menina parou e o rádio chiou, primeiro veio apenas estática e depois, uma profunda respiração.

Ela deu um passo para trás.

— Mamãe? — sussurrou.

A resposta veio como um fio de som, quase enterrado no ruído.

— Fica.

A menina arregalou os olhos.

A palavra não saiu de uma garganta humana. Parecia ter sido formada por muitas vozes tentando imitar uma só. Era fraca, rouca, incompleta, perigosa pois havia nela uma doçura como se a casa tivesse descoberto, naquele instante, que o medo podia ser moldado com afeto.

— Quem está falando?

O rádio chiou outra vez.

— Fica... aqui.

A chuva engrossou do lado de fora, martelando o telhado. A menina olhou para a porta aberta e o campo havia desaparecido atrás de uma cortina cinzenta, um trovão rugiu longe e foi nesse momento que ela decidiu ficar. Nos dias seguintes, ninguém a procurou ou talvez tenha perguntado uma vez, recebido um silêncio como resposta e seguido com a vida, porque a vida tem esse talento monstruoso de continuar mesmo quando alguém desaparece é o mal das pessoas, esquecer quem se sente esquecido.

A menina caminhou pelos cômodos, bebeu água de uma torneira enferrujada, dormiu encolhida perto da lareira apagada e conversou com o rádio. A casa aprendeu com ela e com o tom de uma mãe chamando para jantar. Na terceira noite, ela já não tentou sair, na quarta, começou a responder aos sussurros que vinham das paredes, na quinta, a sua sombra apareceu no corredor antes do seu corpo, na sexta, o rádio falou com a sua voz e, na sétima, quando o sol nasceu pálido sobre São Gabriel, a casa estava vazia outra vez.

Ou quase vazia.

Porque, se alguém encostasse o ouvido na porta, ouviria uma menina cantando bem baixinho atrás da madeira. Uma cantiga simples, quebrada, repetida sem fim, como disco arranhado.

Anos depois, outros vieram entre homens com medo e mulheres com culpa, pessoas que acreditavam poder entrar, olhar e sair. A casa recebia todos. Alguns, com passos no chão de madeira e com outros, batidas. Com os mais frágeis, usava lembranças. Mas a primeira voz ela nunca esqueceu. Foi com ela que aprendeu a mentir e foi com ela que compreendeu que todo ser humano carrega uma porta aberta por dentro, e que bastava encontrar a palavra certa para entrar.

Muito tempo depois, quando Samuel voltasse pela estrada, guiando um Opala antigo sob um céu carregado, a casa já estaria pronta e ela teria corredores mais longos do que pareciam, e quartos que mudavam de lugar. Paredes capazes de repetir pecados e raízes em um jardim alimentadas por nomes esquecidos. E, no coração escuro de tudo, haveria um rádio esperando, não por música, notícia e sim reconhecimento Samuel pensaria estar retornando a uma casa de família. Pensaria estar diante de uma herança e pensaria que poderia vender, reformar, abandonar ou destruir aquilo.

Pobre Samuel, ele não sabia que as casas comuns pertencem aos homens. Já aquela não, ela pertencia aos ecos e os ecos, quando aprendem um nome, nunca mais deixam de pronunciá-lo.


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RESENHA BREVE 

🖤 Arquivo do Imaginário — Leitura

A obra A Casa dos Ecos, de Cleberson Oliveira, se insere no território do horror psicológico com uma construção que vai além do sobrenatural imediato.

No prólogo, a casa não é apresentada apenas como cenário, mas como presença em formação — um organismo silencioso que aprende a observar, escutar e, principalmente, responder. A narrativa trabalha com sutileza a ideia de que o verdadeiro terror não está apenas no desconhecido, mas no reconhecimento: algo ali aprende com quem entra.

A figura da menina, dissolvida entre memória e rumor, instaura o que parece ser o primeiro elo entre o humano e o espaço, marcando o surgimento de uma voz — não necessariamente física, mas funcional. A partir desse momento, o leitor é conduzido a um ambiente onde o tempo, a identidade e a realidade passam a operar sob outra lógica.

O texto constrói uma atmosfera densa sem recorrer a excessos, apoiando-se no silêncio, nas repetições e nos pequenos deslocamentos da percepção, criando uma sensação constante de inquietação.

Mais do que apresentar uma casa assombrada, o prólogo sugere que algumas estruturas não apenas guardam histórias — elas aprendem com elas.



📖  A obra pode ser encontrada nas plataformas digitais indicadas ao final desta postagem.


Links de contato e aquisição da obra do autor

✍️ Autor: Cleberson Oliveira

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