quarta-feira, 20 de maio de 2026

Conto sombrio - O caçador das terras do sol - Miguel Arcanjo Borges

ARQUIVO DO IMAGINÁRIO
leituras, narrativas e investigações do sombrio 


Título: O CAÇADOR DAS TERRAS DO SOL
Autor - Miguel Arcanjo Borges

 

O conto a seguir, de Miguel Arcanjo Borges, se constrói a partir de uma narrativa sombria que une folclore, violência e sobrevivência em um cenário marcado pelo isolamento e pela escassez.

Ao longo da leitura, o horror se manifesta tanto na presença do sobrenatural quanto nas escolhas humanas, revelando uma tensão constante entre instinto, moral e permanência.

📖 A história completa segue abaixo.
🔗 Os links de acesso ao autor estão disponíveis ao final desta postagem.


 

(Ilustração: arquivo pessoal do autor)

 

PARTE I


           Dei o último gole d’água no cantil quando o sol atingiu o ponto mais alto. Nem sinal de rio perto. A comida havia acabado há dois dias, e a fome começava a apertar. Olhei pra minha égua e fiquei preocupado. Tava com a cabeça baixa… nem me cutucava mais como costumava fazer quando sentia sede. Além da estrada, só tinha mato seco, pés de coco babaçu e barro. Mas, segundo o que falaram há quarenta léguas, era só seguir mais quarenta pra achar Oitizal. Acontece que andamos tudo isso e chegamos em outro lugar. Lá, disseram que era só andar mais tantas léguas, mas em outra direção. Agora já nem sei mais quanto eles disseram, nem se tava na direção certa. A vontade que tinha era de parar, só que eu sabia que não dava. Quem para no meio do sertão morre. Guardei o cantil no alforje e montei na égua pra continuar. Ela raspou a pata no chão e seguiu em passos lentos, tão lentos que a gente quase não avançava.— Calma… já não deve tá muito longe — disse, passando a mão na sua crina. — Se anima, vai.
Falar não adiantou muito. Ela relinchou alto e jogou a cabeça pra cima, protestando. Pensei em cantar a música que ela gostava, mas perdi as palavras quando vi algo no horizonte. Será que tava ficando louco? Esse sol bem que podia deixar um doido. Se as plantas tivessem juízo, certamente endoidariam.  Mas ao invés disso elas murchavam. Até que murchar não parecia tão ruim.
Ajustei os óculos escuros na cara e cerrei os olhos para ter certeza. Quase como uma miragem, vi surgir ao longe o letreiro de uma cidade. Seria Oitizal, ou estaria novamente a quarenta léguas de distância?
A minha égua tinha a vista melhor que a minha, então nem precisei de esforço para que ela começasse um galope firme em direção à cidade. Um sorriso apareceu quando vi o letreiro com “Oitizal” escrito se aproximando, mas sumiu assim que passamos por baixo dele. A cidade não dava alegria.
As ruas de chão estavam vazias e o mato crescia nas laterais. As casinhas eram de taipa, mas uma ou outra tinham o luxo dos tijolos. Algumas eram rodeadas por um muro de palha seca, outras davam com as portas direto na rua. 
Conforme avançávamos, percebi o porquê do nome da cidade. Havia um pé de oiti na frente de cada casa. Essas árvores continuavam a mesma coisa: espalhando sujeira e quebrando calçadas, mas isso não parecia importar em Oitizal. Aqui tudo já era uma merda mesmo. Um gato e um cachorro brigavam pela sombra de uma das árvores, e me senti tentado a deitar no meio dos dois pra descansar. A ideia era tentadora, só que tinha que encontrar gente: os bichos não iam responder minhas perguntas. Puxei o chapéu para baixo e limpei o suor da testa pra que não entrasse no meu olho. Pelo calor que fazia, julguei que devia ser hora da sesta.

— Por isso não tem ninguém por aí — comentei baixo. A maioria das pessoas considera que o hábito de falar sozinho é coisa de gente maluca. Doido eu ficaria se não falasse. A companhia da égua era boa, mas manter uma conversa ficava difícil às vezes. Essas ruas desertas me deixavam um pouco puto. Sem gente não tinha conversa, nem perguntas… e nem respostas. 

As pessoas não estavam na rua, mas curiavam. Vi uma janela abrir aqui, outra porta ali. Só o bastante pra ver quem chegou. Mesmo vendo que era só um forasteiro e sua égua cansada, ninguém ousou sair. Não era só a sesta que os arrastava pra casa.

Mais à frente, a rua terminava num boteco. Era um casebre quadrado, pintado de azul e com as janelas bem pequenas, quase no teto. Não sabia se agradecia ou reclamava. Por um lado, era certo que encontraria gente ali: o único lugar em cidades como essa que havia gente toda hora eram os bares. Porém, também fiquei receoso. Nada de bom acontece num boteco. Tinha coisa fedorenta ali… só não sabia ao certo se era um pressentimento ruim ou o cheiro de mijo de bêbado.

De qualquer forma, amarrei minha égua à sombra de um oiti e fui determinado a entrar, mas parei na frente da porta. Passei a mão pela cinta e sorri ao sentir a bainha de couro e o cabo de osso. Ai de mim entrar lá sem meu punhal. Só tinha dois lugares em que eu nunca ia desarmado: os bares e os cabarés. Respirei fundo, bati as botas e entrei.

Lá dentro, o ambiente era escuro e mais quente ainda do que do lado de fora. Um silêncio que só era atrapalhado pelo zunir dos ventiladores pairava no ar. Além de mim, tinha outros três peões sentados numa mesa enferrujada, bebendo cachaça e jogando cartas. Indo ao balcão, passei por eles e baixei o chapéu, mas eles não devolveram o gesto. A atendente era uma mulher de feições gentis, só que me olhou feio quando cheguei.

— Me dê um copo d’água. E um sorriso pra agradar a vista — disse, tomando assento. O balcão de pedra tava sujo de cerveja seca, e a manga do meu gibão ficou preguenta quando me apoiei. Logo veio a água, mas não tive sorte com o sorriso.

Ela me encarou com desgosto, na mesma expressão de sempre. Bastava notarem minha pele pálida e unhas rosadas que a expressão aparecia. Dei um gole rápido, aproveitando a sensação da água gelada descendo a garganta. Se não fosse esse alívio, podia jurar que meu corpo ia cozinhar por dentro.

— O senhor não é daqui.  — De costas, ela ajeitava garrafas numa prateleira na parede. Não precisou de mais que uma olhada pra saber.

— Não… não sou daqui — olhei pra ela por cima dos óculos. Meus olhos vermelhos geralmente assustavam as pessoas, mas a mulher nem se dignou a virar pra me olhar. — Vim de longe… de muito longe.

Ela não disse mais nada. Atrás de mim, os homens continuavam no silencioso jogo de cartas. Agora, algo me dizia que prestavam menos atenção na partida do que antes de eu entrar.

— Arrume água pra minha égua também. Está amarrada ali na frente.

Joguei duas notas sobre o balcão. Com um gesto, ela chamou um rapazinho franzino que estava deitado debaixo perto dela, e logo ele saiu com um balde. Até que a espelunca não era tão ruim. Tá certo que o banco era duro e desnivelado, e que parecia que eu tava dentro de um forno, mas se eu começasse a lembrar dos dias dormindo na estrada logo tudo melhorava Qualquer coisa era melhor que a estrada…

Pensar nisso fez eu lembrar do porque entrei nesse bar pra começo de conversa.

— Aliás… a senhora sabe algo sobre isso? — Tirei do bolso um cartaz dobrado e gasto, mas ainda legível. Abri ele sobre o balcão e estiquei bem para que ela visse.

— Não sei ler — confessou, sem demorar muito a vista sob o papel.

— Pois eu leio — limpei a garganta e comecei. — “A quem interessar, a cidade de Oitizal, na figura do prefeito Wilson, estabelece recompensa de trinta mil-réis àquele que investigar e dar cabo das mortes estranhas ocorridas na região.”

Assim que eu terminei de ler, senti os olhos sobre mim. Olhei de soslaio pra trás e percebi que os homens agora recolhiam as cartas. Será que me chamariam pra jogar? Eu bem que gostaria. A mulher se afastou e começou a limpar uns copos com um pano.

— O senhor é cangaceiro? — perguntou com cautela.

— Não.

— Então… é um volante?

— Também não — respondi, já aborrecido. De novo era eu a responder perguntas. Tinha que ir a uma autoridade logo, já que ali não ia conseguir nada. — Onde encontro o prefeito?

Ela fez menção de abrir a boca, quando o barulho ruidoso de alguém puxando a cadeira do meu lado a interrompeu. Um galego gordo e bem queimado de sol se sentou quase colado em mim. Ele tinha um buraco na alpercata, que fazia seu dedo mindinho ficar parecendo uma salsicha escapando do calçado. Atrás dele seguiram os outros dois, se curvando sob o balcão. Agora as coisas ficariam interessantes…

— Precisam de mais um jogador? — perguntei, olhando o volume do baralho no bolso do galego. — Eu sou bom no truco, no burro, no vinte e um…

Na verdade, ele não parecia querer jogar. Tinha a cara de quem havia saído com muitas mãos ruins, mas algo me dizia que era outra coisa que o incomodava.

— Não. Na verdade, eu queria saber quem tu é — disse com uma voz pigarrenta, virando a cadeira pra mim. Suas mãos se apoiaram nas coxas, como se o corpo lhe pesasse além da conta. — E também… o que faz aqui nesse fim de mundo?. 

Mais perguntas pra me injuriar.

— Tá fazendo interrogatório, é? — brinquei com um sorriso, mas ninguém além de mim achou graça. 

— Tu é bem engraçadinho, né? Mas o que tem de graça tem de desgraça. Nunca vi um homem esquisito assim… todo branco. Parece até que já tá morto — ele levantou uma mecha do meu cabelo e ficou analisando meu rosto. O miserável tava tão perto que dava até pra sentir o bafo de cachaça.

— Te garanto que tô bem vivo. — Afastei a mão dele com um tapa e o sorriso logo sumiu. — Me deixa quieto aqui, compadre. Segue teu caminho que minha conversa não é contigo não

— Ah é verdade, tu quer falar com o prefeito. Eu moro aqui tem quarenta anos e nunca vi um prefeito na vida. — ele balançou o dedo roliço no ar. — E tu chega já querendo encontrar ele… e ainda pra falar das mortes? É tu que vai resolver nosso problema, é?

— Acho que o teu problema é outro. — O rosto dele ficava cada vez mais rosado e o dorso balançava levemente pra frente e pra trás. —  Daqui a pouco vai cair bêbado aí no chão e vai ficar dando trabalho. 

— Olha só… o que eu não entendo é como que chega alguém de fora querendo resolver as mortes e ganhar a recompensa… — suas palavras tavam ficando emboladas. A mão dele subiu à cintura, e por entre a calça e a camisa eu vi algo reluzir. — Tu quer que eu não me encabule? O que me garante que não foi tu que andou matando o povo por aí e agora quer ganhar dinheiro em cima disso? 

A teoria dele me deixaria surpreso se não tivesse me deixado puto. Realmente aquilo fazia sentido, só não gostei do motivo que ele arrumou pra achar que fosse eu. Será que outro forasteiro suspeito tinha sofrido as mesmas acusações?

Tomei um tempo pra responder, matutando o que fazer. Agora o calor parecia ter aumentado, o que atrapalhava meus pensamentos. O suor na testa do galego escorria que nem uma cachoeira pelo pescoço. Pra piorar, um dos ventiladores soltou três faíscas e parou, deixando um cheiro de queimado no ar. O melhor era ignorar tudo isso, e se ele fosse esperto ia abraçar a chance que eu dei.

— Não tô nem aí pro que tu acha. Vou esquecer essa acusação e deixar tu ir embora. — Abaixei meus óculos pra encará-lo. Quando não estavam atrás da lente, eles tremiam indo de um lado pro outro. Ele se levantou de uma vez e deixou a cadeira cair. Considerando o assunto encerrado, eu voltei à atendente. — Enche meu copo aqui, mas dessa vez de cachaça.

Como o galego tava determinado a me aporrinhar, ele sacou o revólver. Apesar da firmeza com que segurava a arma, ela tremia que nem rabo de cascavel.

— O que acha de eu te levar pro sargento e descobrir que diabos é tu? — Os outros dois se colocaram atrás dele. Um com os punhos em riste, e o outro armado com uma das cadeiras do balcão. — Ou melhor… podia te matar logo aqui pra ver se as mortes acabam.

Ele armou o cão, mas bem na hora minha cachaça chegou. Eu dei um gole e me virei com as mãos na cinta.

— Por que as coisas não podiam ser mais fáceis? — desabafei comigo mesmo. O galego franziu o cenho, mas antes que pudesse falar algo eu dei um chute no mindinho que escapava pra fora da alpercata. O dedo dobrou noventa graus pra cima num estalo.

Ele deu um grito e atirou, mas minha cabeça já não estava mais na reta. A bala estilhaçou uma garrafa na parede, e a atendente se escondeu atrás do balcão. Saquei o punhal antes do primeiro estilhaço tocar o chão e ataquei. A lâmina atravessou o pulso com que ele segurava o revólver, e eu o chutei pra longe quando deixou cair. O galego também foi ao chão, mas puxou o braço com punhal e tudo, me deixando desarmado. Mal pensei em recuperar minha lâmina e um soco me atingiu o queixo. Cambaleei pra trás com o mundo girando. Quase caí, mas consegui me apoiar no balcão.

Um segundo golpe veio, mas dessa vez não teve o mesmo fim. Eu me joguei pra trás e o soco cortou o ar na minha frente. Com o braço que apoiei no balcão, alcancei um copo e aproveitei o desequilíbrio do meu adversário para estilhaçar o vidro na cara dele. Ele saiu desesperado de um lado ao outro do bar, levando as mãos trêmulas ao rosto. Acho que os cacos furaram seus olhos. Também senti o sangue escorrer pelos dedos, mas ele havia levado a pior.

Nem havia terminado com o segundo e vi meu mundo girar de novo. O terceiro homem desmantelou a cadeira na minha cabeça. Se tivesse acertado na nuca, ou quem sabe com algo mais firme, não teria me levantado tão cedo.

Pra minha sorte, ao me virar me deparei com ele brandindo o que restou do assento. Ele tentou me golpear usando os restos, mas eu segurei o golpe e não deixei vir outro. O homem puxou a carcaça do banco, fazendo os cacos de vidro na minha mão deslizarem pela madeira. O problema é que ele se preocupou demais em recuperar sua arma, e nem notou quando eu o agarrei pela gola. Dei um puxão e a cabeça dele encontrou a minha com força. No terceiro encontro, ele caiu no chão com a testa sangrando e tremendo. A minha também sangrava, mas acho que tinha o coco mais duro.

Não tive tempo nem de recuperar o fôlego quando o galego levantou do chão com meu punhal na mão. Não é que a lâmina ficava bonita daquele ponto de vista? Mas era ainda mais bonita quando eu segurava. Infelizmente, dessa vez eu tava do lado errado.

Num acesso de raiva, ele correu com uma punhalada alta. Eu nem tive que desviar. Deu três passos e tropeçou nos próprios pés antes de me alcançar. Ele caiu por cima da lâmina e ficou gemendo no chão, se debatendo de um lado pro outro. Algo me dizia que dessa vez não ia se levantar. Eu me curvei pra pegar o que era meu, e quando o fiz uma cachoeira de sangue começou a jorrar do bucho dele.

Voltando ao balcão, vi que a atendente estava pálida como cal de lápide. Os olhos arregalados encaravam a cena, como quem vê a morte. Peguei o copo de cachaça que permaneceu intacto durante a luta e dei um gole. Minha cabeça doía como se dessem marteladas e os cacos de vidro na mão afundavam mais a cada movimento.

— Já que quer tanto saber quem eu sou, eu te digo… — disse ofegante, olhando pro moribundo no chão. A essa altura, já ouvia gritarem pelo sargento do lado de fora. — Sou só um caçador.



PARTE II 


Não sei quanto bebi nem quanto tempo havia passado, mas quando me dei por mim estava deitado no chão duro. No canto, havia um balde e uma esteira de palha de coco babaçu, que não era muito mais confortável que o solo. A penúltima coisa que lembrava é de ter tomado duas doses de cachaça, e a última era a sensação de cair desacordado.

Quando levantei, a cabeça começou a pulsar. Doía ainda mais que antes. Abri e fechei a mão pros sentidos voltarem e senti a carne rasgada esticando. Andando pelo quarto escuro,  dei de cara numa barra de metal. Uma cela. Era tudo que eu precisava mesmo. Já tinha até esquecido como era estar dentro de uma.

Passos se aproximaram no corredor, e uma lâmpada amarela de luz fraca se acendeu, ofuscando minha vista.

— Ainda vivo? — disse um homem com um uniforme vermelho. A luz dava sombra em seu rosto, mas pude notar seu bigode espesso. Na manga, três setas pra baixo indicavam seu posto. 

— Sargento… — respondi com uma tosse. — Infelizmente tô. Tem umas coisas que é melhor morrer de uma vez do que encarar. — Cocei a cabeça tentando juntar as peças do que aconteceu. Eu sempre fui fraco pro álcool, mas duas doses só me deixariam alegre. Pra cair no chão, precisaria de seis ou mais. Talvez alguém tenha me golpeado por trás e me apagado… mas quem?

Coloquei os dedos nas têmporas pra forçar a mente. No bar só tinha eu e a atendente. Lembrando agora, parecia um tanto mansa. Tá certo que me olhava com medo, mas nada diferente até aí. Só que ela foi a única que restou depois da confusão. O mais provável é que tenha colocado algo na cachaça pra me apagar. Eu bem que precisava dormir, mas dessa vez parecia que tinham passado com uma carroça por cima de mim.

Cerrei os olhos com força tentando ajustar a vista. Sem meu óculos escuro, o mundo parecia um monte de vultos brilhantes. As coisas iam tomando forma aos poucos. Quando comecei a enxergar melhor, percebi que faltava algo na cintura.

— Cadê o meu punhal? — tateei o corpo procurando.

— Essa é tua preocupação agora?. — O sargento cuspiu pro lado e puxou algo da cinta. — Esse aqui?

Ele tentou tirar a lâmina, mas quanto mais tentava menos força parecia ter. Aquela bainha foi feita pra ser sacada de um jeito muito específico. Eu quase ri da cara de idiota que ele fez, mas isso podia piorar minha situação.

— Que diabos…como usou isso para matar Nonato?

Suas palavras iluminaram minha mente. De repente eu via tudo certinho…  mas tinha um erro na fala dele.

— Bom…na verdade foi ele mesmo que se matou, só que isso é difícil de explicar. — respondi ao lembrar da cena. Pra atacar doido daquele jeito, acho que nunca tinha usado uma faca ou coisa parecida pra brigar. Que pena que foi a primeira e última vez. — É por isso que não gosto de armas de fogo. Qualquer abestado acha que pode sair por aí fazendo merda com uma.

— Chega de conversinha mole, já sei da história toda. — os lábios do Sargento se retesaram ao ver meus olhos tremendo, indo de um lado pro outro tentando se ajustar a luz. — Saiba que um revólver vale mais que qualquer punhal: só tem que saber usar e ter a mira boa que nem eu. Nonato não tinha nada disso. Era pedreiro.

— Quer dizer que em Oitizal os pedreiros andam armados?

— Pois é… as pessoas têm ficado doidas esses dias.

— Nem me fale — Me apoiei nas barras, lutando para não cair.

O Sargento deixou o corredor e voltou com água e um pedaço de carne.

— Diga-me, qual o seu nome? 

— Não tenho um. — respondi de boca cheia. — Na estrada meu nome não serve pra nada. Acabei esquecendo. Sou só um caçador.

— Tá bom então…Caçador. — falou desdenhando. Acho que não acreditou na minha história, mas não seria a primeira vez que isso acontecia. — Sou o Sargento Ribeiro.

— Sei. Onde tá o prefeito? — perguntei partindo um pedaço duro de carne com os dentes. 

— Prefeito? — um sorriso apareceu no canto da boca. — O desgraçado nunca pisou aqui. Quem cuida de tudo sou eu. Vizinhos brigando por causa de manga caindo no quintal alheio, confusão de marido e mulher. Nesses vinte anos até parto eu já fiz.

Ele fez uma expressão orgulhosa, talvez esperando receber algum reconhecimento.

— Tanto faz se ele tá aqui ou não. Contanto que ele me pague pela caçada.

O Sargento me olhou desconfiado

— Caçada?

Apontei para um cartaz empoeirado na parede, do mesmo modelo do que carregava no bolso.

— Ah…isso — Ele se virou e o arrancou — Já tinha até esquecido desses anúncios que espalhei por aí. O problema é que você chegou tarde. Hoje mais cedo eu matei uma onça bem perto de onde acharam alguns corpos. É assunto resolvido.

Olhei no fundo dos olhos do Sargento e me senti ofendido quando vi que ele acreditava que eu ia cair nessa.

— Uma onça?. Tu pode até enganar esse povo, mas a mim não. As histórias das mortes chegaram longe, Sargento. Falavam de costelas quebradas que deixavam a pessoa fina, e dos olhos esbugalhados pra fora. É certo que não dá pra acreditar em tudo que dizem por aí, mas algo me diz que essa conversa não é tão fora de rumo — dei um gole na água para empurrar o último pedaço de carne. — Eu já tô acostumado com caso assim, e o que eu digo é que o que tá acontecendo nessa cidade é algo que um caçador normal não pode resolver. Nem um caçador comum… e nem você.

O Sargento resmungou, mas não mudou o discurso. Eu ainda ia argumentar, mas ele tinha cara daqueles homens que levavam a decisão pro caixão e só voltam atrás quando a própria decisão é que ameaça levá-los pra lá.

— Já tá na hora de você ir andando, antes de deixar o povo daqui mais paranoico. Vou esquecer a confusão no bar, já que ninguém quis dar queixa — com um barulho ruidoso, ele girou a tranca e abriu a cela. — Sua égua tá amarrada aqui na frente e suas coisas tão ali. — apontou pra um cofo de palha sob uma escrivaninha e devolveu meu punhal.

Pelo costume dos anos de caçadas, eu o desembainhei num saque rápido. O Sargento ficou boquiaberto, mas não soube dizer se pela facilidade com que eu tirei ou pela velocidade. Talvez as duas coisas.

Inspecionei onde a lâmina prateada encontrava o cabo e vi mais um risco vermelho. A terceira fileira tava perto da metade. Coloquei de volta na bainha e guardei na cinta, sentindo o peso. A cada risco ele parecia ficar mais pesado.

— Muito cuidado, Sargento. — disse depois de colocar o chapéu de couro e os óculos escuros. — O homem não escapa nem da morte e nem da verdade. Às vezes, a primeira aparece junto com a derradeira, e aí já não adianta mais chorar.

Ele resmungou algumas coisas e mandou eu sair. Será que alguém na cidade ia querer me ajudar? Não… no melhor dos casos iam me mandar pastar, no pior iam me acusar de novo. Sem ajuda do Sargento, eu tava num mato sem cachorro. Fiquei matutando essas ideias, e quando estava na porta pra sair alguém entrou de supetão. 

— Cuidado, diabo. — Reclamei, mas o garoto mofino e maltrapido que entrou nem olhou pra mim.

— Sargento! — exclamou, atropelando as palavras. — Aconteceu de novo…tem um corpo próximo a fazenda do Ramalho. Já tem gente ficando brava com o senhor…

Do lado de fora já dava pra ouvir um burburinho. O Sargento suou frio e cerrou os dentes.

— Boa sorte com suas onças— baixei o chapéu e desviei do garoto que bloqueava a porta.

Quando saí, dei de cara com uma multidão. Tinham poeira grudada nos corpos suados, e as mãos ossudas seguravam foices e facões com um olhar sanguinário. Erguiam suas ferramentas no ar, exigindo que o Sargento aparecesse. Fiz um aceno com a cabeça ao passar por eles e atraí alguns olhares feios, só que a atenção deles tava pra outro lugar. 

Quando tava na minha égua, o Sargento apareceu do lado de fora com a mão no revólver e gritando:

— Vão embora, vão. Não quero saber de ninguém me aperriando não. Já disse que vou resolver isso. — Alguns na multidão xingaram, outros cuspiram na sua direção, mas aos poucos ela foi se desfazendo. Podiam ta putos, mas ainda tinham medo das autoridades. 

— Espere. — Ele correu até mim e me tomou as rédeas. — Talvez…precisaremos de você. Acho que pode ajudar sim…

Eu dei um sorriso e passei a mão pelo punhal. Olhei para o garoto que saiu do xilindró atrás dele e disse:

— Me leva até o corpo

PARTE III

O caminho até a fazenda se mostrou mais longo do que eu esperava. Junto a mim vieram o Sargento, dois jovens irmãos que haviam visto o corpo, e Raimundo, o único caçador da cidade com coragem o bastante pra acompanhar a gente, embora algo me dissesse que o real motivo do Sargento chamar ele é que ainda não confiava em mim. 

— Falta pouco mais de meia légua — afirmou José. Cavalgava a frente do grupo. 

— Tá errado, é uma légua inteira. — Discordou João. Ia do seu lado e tinha o hábito de nunca concordar com o irmão, o que me fez questionar se eles sabiam pra onde tavam nos levando.

Ao longo do caminho, uma planície se estendia de um lado, e a mata do outro. Na planície tinha gado, mas não pasto. Ruminavam mato seco. Por isso tavam tão magros. Quando passávamos, eles erguiam a cabeça pra curiar com seus olhos sofridos. Era de dar dó. O flagelo da seca não perdoava ninguém.

— De quem é essa fazenda? — perguntei ao ver o esqueleto de um boi perto da cerca. 

— Do seu Ramalho. — o Sargento seguia quase na minha cola, com a testa cheia de suor e as roupas vermelhas combinando com o horizonte poeirento. — Tá trancado na sede desde que essas mortes começaram. 

— E isso há quanto tempo?. — Passando pelo leito de um riacho seco, vi as vacas deitarem na lama pra se refrescar.

— Um mês, talvez dois — Pelo tom de voz, supus que ele tava amenizando. — O primeiro sumiço foi o Rodrigo. Ele era um caçador que morava na reserva, mas nós nunca achamos o seu corpo. Acho que ele se perdeu na floresta.

— Depois dele, já apareceram quinze mortos — acrescentou Raimundo. O homem tinha um porte físico bom, até invejável eu diria, e carregava a tiracolo a menor espingarda que eu já havia visto.

Aproximando-se de onde a estrada fazia uma curva pro oeste, os irmãos arriaram os cavalos.

— Chegamos. Foi aqui — apontaram para um monte de folhas sob o pé de pequi. — Escondemos o corpo ali para nenhum bicho mexer.

O Sargento e Raimundo desceram dos cavalos e arrastaram o corpo até o meio da estrada. Desmontei e comecei a espantar as moscas que sobrevoavam o corpo. O zunindo delas atrapalhava meu raciocínio.

— Uma mulher. Devia ter uns trinta anos. — Analisei o rosto e fiquei com pena. Se não fosse os olhos quase saindo da cara, ainda poderia dizer que tava bonita. Levantei sua cabeça pelos cabelos e mostrei aos dois homens. — Reconhecem?

Nenhum dos dois a conhecia. O mais provável é que era de outra cidade, e deu azar de ser pega na estrada.

No resto do cadáver tava tudo intacto. Passei a mão pelo corpo procurando alguma pista, quando senti as costelas afundarem.

Foi então que puxei o punhal e rasguei suas roupas. Seus seios saltaram para fora, o que fez os irmãos corarem e olharem para o outro lado. O que me interessou foram as costelas. Estavam esmagadas e convergiam para dentro, como gravetos quebrados.

— É como você tinha dito — disse o Sargento. — Talvez tenha sido uma jiboia, algum bicho…não sei.

— Impossível — Raimundo já segurava a carabina com firmeza. — Uma jiboia não teria força para arrebentar as costelas de uma mulher assim.

Realmente. Mas o que teria?. E se isso foi feito por alguém? Um maníaco que descobriu um novo jeito de matar, que foge completamente de tudo que já foi visto antes em assassinos. A nossa mente gosta de inventar moda. Essa teoria era mirabolante demais. Isso não era um caso de detetive. Era um caso que só eu poderia resolver, igual a tantos outros. Só que nenhuma caçada é igual a outra. A resposta tinha que estar na minha cara.

 Comecei a analisar cada parte do corpo em busca de outro sinal. Foi quando lembrei das mãos. Quando vivos, os olhos sempre nos dizem algo sobre nossa vida. Quando mortos, são as mãos que cumprem esse papel. Segurei os dedos da mulher e percebi que havia algo sobre as unhas. Pelos, espessos e castanhos. Muitos bichos tinham pelos assim. Mas só um matava desse jeito.

— Levantem a cabeça dela. — ordenei indo ao alforje na minha égua. Era hora de tirar a prova.

Peguei minha bolsa de couro onde guardava as ferramentas e desenrolei no chão.

— Ferramentas estranhas para um caçador — comentou o Sargento, vendo a cruz de prata, a estaca de madeira, as velas brancas e outros materiais presos nas tiras de couro.

— Vocês dois. — Apontei para os meninos que assistiam assustados do alto de seus cavalos. — Podem ir, já foram úteis por aqui. — Nem precisei falar duas vezes. Saíram disparados.

Raspei os cabelos da mulher com a lâmina do punhal e encontrei o que suspeitava: um buraco que cabia meu dedão, bem acima da nuca. Com a estaca de madeira comecei a alargar o orifício, usando o cabo da adaga para golpear. O crânio estalou, e a pele do rosto da mulher começou a esticar. Mais umas batidas e ele rachou em dois.

A janta do sargento veio à boca, e até Raimundo, caçador já acostumado a cenas feias, levantou os lábios com nojo.

Com a adaga, rasguei o couro cabeludo e a minha pior suspeita se confirmou. O crânio estava vazio, sem resquício do cérebro. Na parte de dentro, havia vários arranhões. O Sargento correu até a beira da estrada e se curvou pra vomitar.

— Que porra é essa? — Raimundo chegou perto pra analisar.

— Comeram seu cérebro…ou melhor, sugaram ele — respondi, organizando os materiais na bolsa de couro. Olhei pro horizonte e vi que o sol já se punha.  

— Nunca vi isso antes — admitiu Raimundo, olhando ao redor com olhos assustados. Ele engatilhou o cão da espingarda. — Que animal pode ter feito isso?

— Não foi um animal.

Analisei novamente as unhas do cadáver.

— Sargento, quem foi mesmo o primeiro a sumir?

— Rodrigo, eu já disse — respondeu, se aproximando com passos temerosos e limpando o canto da boca com as costas das mãos. — O velho caçador que morava na reserva, não muito longe daqui.

— Que tipo de caçador ele era?

— O pior tipo — respondeu Raimundo com desgosto, dando um cuspe no barro vermelho. — Matava por prazer. Já ouvi ele se gabando de matar uma paca amamentando a cria…e de ter sido macho o suficiente para matar os filhotes à pisões.

Olhei pro horizonte e senti um arrepio. A noite caía rápido.

— Temos que ir. É bom estar a alguns quilômetros daqui antes que o breu tome conta da estrada. — Disse com urgência.

— O quê? Espere! — protestou o Sargento. — Não podemos deixar o corpo assim.

— Não temos tempo — rebati, indo em direção ao cavalo. — Ele vai voltar em breve. Sempre volta aos lugares em que conseguiu uma presa.

— Ele quem?

— O Capelobo — respondi, guardando minhas coisas nos alforjes. — Veja, a noite chega, e é nessa hora que ele sai da mata. 

Fiz menção de subir no cavalo, mas antes de pôr o pé no estribo o Sargento me segurou pelo pulso. 

— E-eu sabia… você é um maluco!. — seus olhos cerraram, mas não sei se por medo ou por raiva. É claro que não ia acreditar. — Acha que vou acreditar nessa história?

— E-ele deve ser o culpado. Esse daí deve tá metido com o Coisa Ruim — Raimundo se intrometeu e levantou a espingarda engatilhada na minha direção. Sabia que o homem tinha algo contra mim desde que saímos da cidade. — Veio até aqui pra pegar o dinheiro do prefeito com essas besteiras.

Desviei meu olhar do Sargento para analisá-lo. Agora vendo melhor, não sei dizer se seu corpo grande fazia a espingarda ficar pequena ou o contrário. Fato é que ele tremia que nem vara verde. 

— Cuidado, caçador. Matar um homem é diferente de matar um bicho — Levantei a mão em um aviso. — As pacas não revidam…

— Isso não vai ser preciso, Raimundo. Vou pôr ele de volta na cela e descobrir quem é de verdade. — O sargento soltou meu pulso para amarrar minhas mãos.

— Não precisa disso, eu mesmo vou pra cela.  Só temos que meter o pé logo.

Mas assim que subi na sela, um barulho estridente ecoou pelas árvores em nossa direção.

— Vamos, não temos mais tempo! — Gritei, mas não deram ouvidos. Ao redor, tudo era noite. Os grilos estridulavam no mato, juntando-se ao coaxar dos sapos para fazer o coral noturno. A única luz vinha da lua cheia, que conseguia fazer uma sombra desbotada se formar no chão. O barulho se repetiu, dessa vez mais próximo e mais forte.

— Tem medo de guaribas? — zombou o Sargento com a voz falha. Já tava suando frio de novo. — S-sabia que não era caçador de porra nenhuma.

Assim que terminou de falar, as árvores começaram a se mexer. Um vulto passava entre elas.

— Chega disso. — Raimundo se virou pra mata e ergueu sua carabina. — Vou matar o que quer que seja esse bicho. 

A criatura soltou mais um rugido, e começou a caminhar para fora, fazendo as folhas secas estalarem sob os pés. Foi então que ele atirou. A bala atingiu o alvo, e o avanço parou antes de sair da mata.

— Tá vendo. — disse, suspirando de alívio. Do seu rosto o suor escorria e pingava sobre o cano da arma. — Não tem nada que uma bala não resolva. Vamos ver que bicho é esse.

Começou a caminhar na direção da mata.

— Maldito idiota… — Balbuciei baixinho. 

Raimundo parou no meio do caminho, a dez passos da escuridão da mata. Foi então que o bicho se revelou. Um corpo humano de dois metros, coberto de pelos grossos e castanhos saiu caminhando das sombras. As centenas de nós em seus pelos estavam sujos de sangue e carne podre, o que trouxe o cheiro de carniça.

— Que porra é essa? — o Sargento sacou sua pistola e fez um disparo. O tiro acertou a cabeça em formato de tamanduá, mas não teve nenhum efeito.

— Meu Deus…meu Deus. — Raimundo repetia enquanto tentava colocar mais um cartucho na espingarda. Suas mãos tremiam como se tomasse choque, o que fez a munição voar de seus dedos. 

Ele seguiu o trajeto com os olhos até ela cair aos pés do bicho. Suas unhas pareciam lâminas, e quando subiu o olhar já estava envolvido pelos seus braços fortes. 

— NÃO! — gritou o Sargento disparando, novamente sem efeito. Raimundo ainda conseguiu resistir um pouco. Era forte, mas o Capelobo era mais. Com um estalo seco, vi os braços do homem dobrando para dentro. Eu tentei puxar o Sargento pelo ombro e por na minha égua, mas ele se debateu e voltou a atirar. Tinha que levar o homem vivo.

Sem mais demora, corri aos meus alforges e abri a bolsa de couro no chão. Peguei uma cabaça de pólvora e comecei a fazer um pavio com um pedaço da camisa. Mais a frente o Sargento continuava os disparos. Já esvaziava o terceiro tambor.

Mas o Capelobo continuava abraçando, indiferente às balas. Apertou tão forte que escutei os ossos do tórax de Raimundo se partindo. Quando a criatura ouviu, soube que estava no ponto. Ela colocou para fora sua longa língua pontuda e espinhosa. Passou primeiro pelo rosto da sua presa, deixando um rastro de saliva viscosa em sua testa. Foi então que o golpe final veio. 

Com a ponta da língua, ele perfurou a cabeça de Raimundo, que grunhiu como um cão no abate. Já não tinha mais forças pra gritar. A língua do Capelobo jogava pra boca todo o cérebro que conseguia envolver, fazendo o corpo entre seus braços se debater.

Os gritos do homem foram tão altos que tive que balançar a cabeça pra me concentrar. Com as mãos trêmulas, quebrei duas velas que havia colhido em um cemitério no dia de finados e coloquei seus pedaços dentro da cabaça. O Sargento continuava atirando sem resultado, até que um dos tiros acertou o seu olho.

O Capelobo bufou, mudando sua atenção da presa pra nós. Deu um rugido tão longo que quando terminou precisou respirar fundo. Seu peito peludo subia e descia rápido. Foi então que ele largou o corpo sem vida e saiu em disparada. As mãos do Sargento tremiam tanto que ele não conseguia recarregar. Só que isso não o impedia de tentar. Ia confiar na arma até o último minuto. Algo me diz que ele ia morrer de arma na mão se eu não tivesse acendido o pavio e jogado a cabaça pro ar.

O bicho tava a dois passos de nos alcançar, quando a bomba estourou e espalhou pelo seu corpo a cera das velas. Fumaça subiu junto com cheiro de queimado, e o Capelobo começou a se debater de um lado pro outro.

— Vamos! — puxei o Sargento pra minha égua, a única montaria restante.

Guardei as coisas nos alforges e subi atrás dele, disparando minha fiel companheira pela estrada escura, deixando pra trás o Capelobo queimando e grunhindo. 

Mesmo distantes, o Sargento continuava tentando encaixar a munição no tambor. Foi difícil pra ele ver que um revólver não resolvia todos os problemas. Levou algum tempo pra ele soltar a arma e a bala, e mais tempo ainda para quebrar o silêncio.

— Obrigado. — disse em um quase sussurro, com os olhos fixos no nada.  Já chegávamos no portal da cidade, a apenas alguns minutos da alvorada.

— Ainda preciso de você vivo pra me pagar. Aliás, sua utilidade não acabou. — respondi seco. — Preciso de um padre. O Capelobo vai levar um tempo pra se recuperar, então temos que matar ele antes disso.

Também precisava de prata. Só havia sobrado uma bala da última caçada. Achei que encontraria um ferreiro na cidade, mas pelo visto me enganei bonito. Deixa pra lá…por enquanto tinha mais coisas pra me preocupar. Ia continuar listando o que precisava, mas quando dei fé o Sargento desmaiou e caiu da sela.









PARTE IV

A igreja do povoado me surpreendeu ao ser a parte mais precária da cidade. E não era simplesmente o desgosto que eu tinha em relação a esses lugares. Ela ficava no centro da praça, se destacando pela cor branca, mas bastou eu chegar perto pra ver que o branco já não era tão branco assim, e que as telhas já tavam pretas e cheias de lodo. Até a cruz de bronze no topo do pilar já tava esverdeada. Só que a estrutura pouco importava. O que eu queria mesmo era quem tava dentro. Ao chegar, paramos os cavalos debaixo de um oiti do outro lado da quadra. 

— Como é esse padre? — perguntei pro Sargento. Ele ainda parecia meio pálido depois da noite anterior, mas já havia se recuperado. 

— Chegou aqui há pouco tempo, depois de muitos anos sem padre nenhum pôr os pés em Oitizal. Tenho certeza que é um bom homem — ele evitava me olhar. O que eu precisava saber era se ele ia ser um aliado. Os Padres são homens da fé, mas custam ter fé no que foge das suas próprias crenças. — Mas…ele possui alguns negócios, digamos assim.

Franzi o cenho ao notar sua hesitação.

— Que tipo de negócio?

— Posso dizer que ele administra um estabelecimento que conecta as pessoas. — sua voz era vacilante. 

— Acha que ele vai ajudar?

Vi a dúvida percorrer o seu semblante.

— Não sei…quando se trata do padre, é difícil dizer. 

— A mim pouco importa o que ele faz de sua vida. Não é da minha conta — cuspi ao pé da cruz quando passamos por ela. — Contanto que me ajude.

Assim que entrei na igreja comecei a entender do que se tratava o tal lugar. O interior do edifício era pequeno, com duas fileiras de bancos cheios de farpas, de frente a um humilde altar. Do lado esquerdo, havia uma porta de onde ouvimos gritos.

— …acha que 10% é um valor justo?... — comecei a distinguir as palavras conforme avançávamos. — Não vou pôr minha pele em risco ganhando essa mixaria! Ainda mais por causa de puta…

A porta se abriu de supetão, levantando a poeira do chão de pedra.

— Eu tô fora! — um homem alto, de ombros largos e cabelo crespo, saiu do cômodo a passos firmes. — Arrume outro! — gritou já na saída, fazendo suas palavras ecoarem pela igreja.

O Sargento se adiantou e bateu na porta aberta.

— Entre! — uma voz pigarrenta ordenou.

O padre se encontrava numa bancada, analisando atentamente um documento. De maneira engraçada o cômodo parecia dois ao mesmo tempo: um escritório e um depósito. Havia uma sineta sobre a mesa, cercada de um monte de papel. Olhando mais atentamente percebi que eram cheques. Num outro canto tinha um cofre, e em cima dele um candelabro com as velas da missa.

— Padre, este é o Caçador — disse o sargento, meio envergonhado ao anunciar o nome. — É ele quem precisa da sua ajuda.

O padre levantou os olhos e me encarou com estranheza, mas pela primeira vez eu quase havia encontrado alguém tão estranho quanto eu. Seu rosto carregava as marcas da varíola e possuía um nariz adunco que chegava a fazer sombra sob o fino bigode. Os cabelos grisalhos eram escassos em cima e volumosos do lado. Quando ele levantou, revelou um bucho tão grande quanto uma melancia sob a túnica branca.

— Nunca havia visto alguém albino — Ele abriu uma janela ao lado da escrivaninha e puxou um cigarro. Não achei que ia encontrar alguém que reconhecesse minha condição nesse fim de mundo. Mas ele era padre, ao menos teoricamente, e os padres eram estudiosos.  — Do que precisa?

— Parece que é você que precisa de algo. — Fiz referência a confusão que acabou de acontecer. O padre já puxava a primeira tragada. — Ou melhor… de alguém.

Ele soltou fumaça pelas narinas e bateu o cigarro com o indicador, adicionando mais uma mancha cinza às outras dezenas que salpicavam a túnica.

— Acho que sim. Parece que agora preciso de um cafetão — disse, após uma longa pausa. — Esse que acabou de sair achava 10% uma mixaria. Dá pra acreditar? Queria receber 30% de cada mulher. Absurdo! Eu recusei, é óbvio. Um padre que se preze não iria permitir tamanha loucura. Mas não ia mesmo. — continuou, quase em um desabafo. — As putas dão duro o dia todo, todo dia, e eles querem ganhar mais só pra de vez em quando bater em alguns caloteiros. Dá pra acreditar? 

Suas reclamações foram interrompidas por uma longa tosse.

— É realmente difícil de acreditar. — Olhei de soslaio para o sargento, que limpava o suor acumulado na testa. Acho que ele não gostaria de admitir que o único padre da cidade era um cafetão. Era hora de descobrir se aquele era um padre de verdade. — Então o senhor administra um ‘’estabelecimento que conecta pessoas’’ 

O padre me olhou surpreso.

— Bom, essa é a primeira vez que vejo alguém chamar um puteiro assim — confessou, abrindo um sorriso que fazia seu queixo triplo se esticar. — Mas sim, é isso mesmo. Sou dono do primeiro e, se Deus quiser, último puteiro de Oitizal.

Dessa vez, encarei diretamente o Sargento, que coçava a sobrancelha e fingia analisar algum papel sobre a mesa. Acho que era importante ter um autoridade religiosa na cidade, por isso fazia vista grossa.

— Também é a primeira vez que vejo um padre cafetão. — sabia que padres eram capazes de muitas coisas, mas eles nunca cansavam de me surpreender.

Ele me olhou como se eu tivesse profanado a cruz.

— Cafetão? Eu jamais seria um! Além de ser um pecado grave, eu nunca conseguiria. Pra essa profissão, você tem que ser forte, além de bom de bala. — se defendia como pudia, com as desculpas que lhe cabiam. — Como pode ver, estou indo para a décima terceira arroba de peso e atiro tão bem quanto um cego. — deu uma risada torta, claramente divertido com as próprias palavras. — Você entendeu tudo errado. Sou apenas administrador do puteiro, nada mais.

— Ainda assim é um padre metido com putas — provoquei.

— E onde está o demérito? — Deu de ombros. — São ótimas pessoas, melhores que muitos padres, bispos e arcebispos que cruzei na vida. Dizem que até Jesus andou com uma. Além do mais, um padre precisa comer. Nem preciso dizer que não sou um asceta. — puxou outro cigarro. — Veja bem, se eu fosse padre na capital, teria dinheiro para beber o melhor vinho, comer boa comida e fumar bons cigarros. Mas estou aqui, nesse cu de mundo, então tenho que me virar do jeito que dá. Da Dioceses, mal ganho para os cigarros do mês.

Ele se afastou da janela e me ofereceu um. Recusei balançando a cabeça.

Ele guardou o cigarro e disse em um tom admirado:

— Todo homem precisa de um vício. — voltou à bancada, cruzando os braços sobre a barriga avantajada. — Diga-me, caçador, quais são os seus?

— Não vim aqui para me confessar, padre. — Comecei a examinar os papéis nas paredes, procurando algo que comprovasse que aquele homem era quem dizia ser. Foi então que vi um certificado atrás de sua poltrona. Seminário de Olinda, escrito em letras garrafais. O nome dele estava logo abaixo, e depois de muitas outras palavras vi escrito ‘’certificado’’

— Foi onde me formei — disse, percebendo para onde eu olhava. — Acredite ou não, sou padre. O único em umas boas léguas. Agora digam-me…o que querem de mim?

— Precisamos de ajuda pra caçar. — A confusão dominou seu semblante. Acho que ele julgou se tratar de uma piada porque ele deu uma longa gargalhada tossida. 

— Entendo de caçadas tanto quanto entendo inglês, veio ao lugar errado — e voltou sua atenção pros papéis.

— Não é qualquer caçada. — Disse o Sargento. — Vamos pegar o que está causando as mortes.

O padre levantou a cabeça de súbito e bateu as mãos na mesa.

— Acharam o assassino? — disse com os olhos arregalados.

— Não exatamente... 

— O ‘’assassino’’, se é que podemos chamar assim, é Rodrigo. — minha revelação o atingiu como um coice. — Ou melhor…o que ele se tornou

— Como assim? — perguntou o padre, chegando pra ponta da cadeira.

— Ele agora é um…Capelobo — as palavras bambearam nos lábios do Sargento. Admitir a existência da criatura o fazia se sentir bobo.

O padre se acomodou na cadeira de novo e deu uma fungada de indignação.

— Pensei que estavam falando sério…não tenho tempo pra essas besteiras.

Comecei a percorrer a sala, observando os itens da missa no meio de cheques e dinheiro do puteiro. 

— Sabe que tipo de caçador Rodrigo era? 

O padre fazia rascunhos de cálculos nas costas da capa de um caderno.

— Como eu já disse, eu não entendo muito de caça, mas, pelo que sei, ele não era o orgulho da sua classe. 

— Podemos dizer que sim, e exatamente por isso ele virou essa criatura — Respondi me encostando na parede. — Quando um caçador mata filhotes ou fêmea prenha, os espíritos da floresta podem se aborrecer e amaldiçoá-lo. Não acontece sempre, é claro. Mas tem uma chance desse caçador virar um Capelobo. E tem uma chance menor ainda desse Capelobo começar a caçar gente, já que a maioria ataca só o gado. Pra resumir: vocês deram um azar danado.

O padre começou a rir de deboche, fazendo a banha tremer. Seus dentes amarelados e gengivas escuras me enojavam. Creio que ele me tomou por um charlatão

— O pior é que é verdade. — O Sargento interrompeu a risada. — Vi com meus próprios olhos.

Ele parou de repente e nos encarou com uma expressão séria, até um tanto assombrada, eu diria.

— Vocês estão falando sério? — bastou ele olhar pro nossos semblantes pra saber. — Não pensava que essas coisas existiam de fato, achava que era moage de índio.

— A maioria das pessoas não acredita. Até eu que vi tô custando acreditar — Confessou o Sargento. — Hoje mais cedo liguei pro batalhão contando o que aconteceu e pedi reforços. Eles ameaçaram me prender se eu continuasse fazendo gracinhas. 

— E porque precisam de mim? Eu não sei porra nenhuma de caçar nada. Só sou bom em comer, fumar e fazer contas — O padre se levantou e foi novamente à janela ver o movimento da praça. Uma carroça carregada de abóboras estava parada no meio da rua, e um punhado de peões coçava a cabeça tentando resolver o problema.

— Preciso de água benta.

— Quanta?

— Muita, o máximo que pudermos carregar.

O padre deu um longo suspiro. Na rua, começavam a carregar as abóboras pra outra carroça.

— E o que mais vai precisar? 

— Sal…e uma criança. — O clérigo colocou uma mão no peito e fez o sinal da cruz com a outra. O Sargento, que também ignorava essa parte do plano, cerrou os olhos na minha direção. 

— Pra que diabo tu quer uma criança? — A sua voz saiu seca, e sua mão repousou sobre o revólver.

— É algum tipo de sacrifício? — Disse o padre, se afastando com olhos arregalados. Olhei pra ele e dei uma risada. Achava engraçado a fixação dos cristãos em sacrifícios.

— Longe disso. — Respondi depois de dar umas risadas — O Capelobo foi ferido por mim, e também interrompemos sua refeição. Agora ele vai ficar acuado na mata. Não vai sair por nada, a não ser que tenha um bom motivo.

— E o motivo é a criança... — ele concluiu alisando o terço no pescoço.

— Nem pensar. — Exclamou o Sargento. Não imaginei que ele fosse apoiar de primeira, afinal ele havia visto o que um Capelobo pode fazer. — Isso tá fora de cogitação. Seria um crime muito sério usar uma criança nisso.

— E um pecado também. — achei uma hora conveniente pra se importar com pecados. — Além de que…como pretende arrumar essa criança?

— Os pais vão entregar voluntariamente, óbvio. — disse com uma pretensão que pareceu ofender os dois. — Sargento, escreva um folheto e cole na porta da igreja, dizendo que pagará metade da minha recompensa a quem levar seu filho, neto, sobrinho pequeno para ajudar na solução do caso.

O homem cuspiu pro lado.

— Acha que vão vender seus filhos assim? — Eu tinha certeza que iriam, mas me limitei a assentir com a cabeça para não parecer tão presunçoso. — O que diz, Padre?

O clérigo fez o sinal da cruz mais três vezes e ficou parado em uma oração silenciosa antes de dizer:

— Não teria alguma outra forma? 

— É o único jeito. — O que eu não disse é que Capelobos também gostam de padres e mulheres, mas não eram tão atrativos quanto às crianças.  — Uma criança é como se fosse um…filhote de uma caça, sabe?. Os instintos malignos do bicho vão ficar doidos. Não vai nem notar que é uma armadilha.

Apesar das explicações, os dois continuavam hesitantes. O padre alisava sua cruz com os dedos gordos, enquanto olhava pra fora. O Sargento também parecia refletir. Depois de um longo silêncio, ele tirou a mão da pistola e cruzou os braços sobre o peito.

— Se é o único jeito…mas os pais têm que saber e concordar com o risco. —  Disse, cauteloso. Eu abri um sorriso ao ver ele todo cheio de justificativas e condições. No fundo, ele sabia que nada disso importava. Tanto eu quanto ele sabíamos que a qualquer custo o Capelobo tinha que morrer. Mesmo que esse custo fosse a vida de alguém inocente, mas isso ele não podia admitir. Mas se algo acontecer com a criança…eu vou ser o primeiro a te encher de bala.

O padre ainda passou um tempo ensimesmado, olhando pela janela com a cruz do terço entre os dedos.

— Tá certo, eu ajudo vocês. Faço quanta água benta for preciso, mas também quero algo. — Aquela altura, eu aceitaria qualquer exigência, mas as palavras que seguiram me doeram o peito. — Pra cometer tamanho pecado, quero metade da recompensa. 

Meu dinheiro ia só diminuindo, mas não podia reclamar. Afinal, um pouco de algo já era melhor do que nada. 

— Perfeito. Vamos assim que encontrarmos a criança. — disse aliviado. O Sargento deu um suspiro e abriu a boca, mas não disse nada. Creio que pensou em voltar atrás, mas logo se deteve. 

O padre assentiu com a cabeça e voltou a se sentar para continuar os cálculos. Estávamos na porta quando ele disse mais uma coisa.

— Eu também vou com vocês. — Disse um pouco relutante. — Digo…na caçada. Vou estar lá pela criança, afinal Jesus ensinou a proteger os pequeninos. Além do mais, quero ver essa criatura com meus próprios olhos.

Pensei em barrá-lo: quanto mais pessoas envolvidas em uma caçada, mais chance de algo sair dos trilhos, mas por algum motivo senti que ele poderia ajudar. Ao menos pra ser a segunda isca do bicho caso o plano da criança falhe. 

Já nos cavalos, abri a bolsa que carregava a tiracolo e encontrei no fundo a última bala de prata que havia sobrado. O sol já estava baixo, e a luz que passava pelas folhas dos oitis deixava ela num tom alaranjado.

— E se você errar? — Indagou o Sargento receoso ao olhar a munição prateada. A má lembrança dos tiros que deu no Capelobo o fizeram estremecer. E se eu errar?. A pergunta ficou na minha cabeça.

Quando passamos pela carroça, ela estava vazia. Vi que o jumento havia quebrado a pata, e um homem chegava com uma espingarda pra sacrificar. Olhei pro punhal na cintura. Ele também era feito de prata, então serviria pra matar o bicho. Mas não…chegar perto seria suicídio. Se eu errasse, o que poderia fazer além disso?. Só iria me restar a lâmina. A vida inteira corri das armas de fogo por causa da minha vista ruim. Agora, ter que usar uma lâmina poderia significar o fim. Dei um sorriso de canto. Que ironia cruel. Abri a boca para responder, mas um estrondo abafado fez meu peito tremer.

 Os curiós levantaram voo, e os cachorros começaram a latir atordoados. Quando virei-me, o jumento jazia morto no chão. Um arrepio subiu minha nuca, e apertei com força as rédeas da minha égua.

— Bom…é melhor eu não errar. 




PARTE V

A manhã do terceiro dia chegou, e com ela minhas esperanças começaram a ruir. Era também a terceira manhã que eu acordava numa cela. Fazia tempo que eu não passava tanto tempo numa cadeia, mas pelo menos dessa vez era como hóspede.

— Acha que hoje a criança aparece? — perguntou o Sargento, da recepção.

— Não tenho como saber. — respondi da cela em um tom de voz alto o bastante para ser ouvido. Me guiando em um espelho quebrado, eu tomava cuidado pra não me cortar enquanto tirava a barba. — Pelo valor eu achei que teria logo uma fila de gente querendo entregar seus filhos. 

Mesmo longe, escutei o Sargento resmungar. Ele não diria abertamente, mas tenho certeza que pensava a mesma coisa. Quinze contos de réis mudariam a vida de qualquer um da vila, e com sorte talvez ainda teriam uma boca a menos para alimentar. Justamente o que eu considerava sorte era o que afastava a ideia dos outros. Acho que errei em esperar tão pouco das pessoas.

— E se demorar demais? — Ele apareceu na porta da cela determinado a entrar, mas se deteve. Senti seus olhos encarando minhas costas nuas. Devia estar novamente impressionado pela palidez da minha pele, ou talvez pelas cicatrizes vermelhas das marcas que o sol já deixou em mim. Mas não podia julgá-lo por isso. Acho que leva algum tempo para se acostumar a essas coisas, embora nunca tenha ficado o suficiente na vida de alguém para saber ao certo.

— Se demorar demais… — senti a lâmina irritando meu pescoço. — pode ser que não encontremos mais o Capelobo. Assim como uma onça ferida, ele pode procurar outro ambiente longe daqui pra se curar em segurança. 

— O que garante que ele já não tenha feito isso? — A sua voz carregava uma leve esperança. 

— Nada. Mas assim como ele pode estar mais longe, ele também pode estar mais perto. — liguei a torneira da pia enferrujada e tirei o resto dos pelos brancos da cara. — Pode querer vir pra cá assim que se recuperar. Mesmo comigo aqui, seria difícil matar ele sem um plano

A cela ficou em silêncio, exceto pelas batidas do coturno do Sargento no chão. Tava inquieto. Era hora de tentar outra coisa…

— Olha, tava pensando… — ele cruzou os braços sobre o peito. Acho que não gostava dos meus pensamentos — A gente pode pegar uma criança qualquer e fazer o que tem que ser feito. É melhor correr esse risco do que deixar todo mundo morrer, não é?. — Dei um sorriso de canto de boca, observando sua reação pelo espelho. O medo pode deixar as pessoas loucas, mas pelo visto eu não consegui assustá-lo o bastante. 

— Tente fazer algo assim e eu mesmo explodo sua cabeça. — bradou, já com o revólver em mãos. — Aposto que essa história dele vir pra cá é mentira. Só tá querendo me enganar pra eu aceitar essa merda.

— Se você quiser, a gente pode esperar e ver com os próprios olhos. — Disse com a voz calma. A dúvida parecia consumi-lo de dentro pra fora. Talvez se eu pressionar mais…

Porém antes que eu pudesse continuar, alguém chamou na recepção. O Sargento foi rápido o bastante pra chegar antes do segundo chamado, mas devagar o suficiente pra não parecer desesperado.

— Fernanda…o que faz aqui? — exclamou surpreso. Eu cheguei logo atrás dele, mas não vi o que esperava. O certo seria chegar um adulto com uma criança que não alcançasse seus quadris, mas o que vi foi uma menina alta e magra possivelmente com idade suficiente para ser mãe.

— Mamãe tá doente. — Disse com uma voz quebrada. — Faz dois dias que tá vomitando e com diarréia. Acho que pode ser cólera. 

O Sargento baixou a cabeça, mas não sei dizer se por pesar ou por medo dela estar certa.

— Aqui não tem médico. — Disse colocando minha camisa branca e saindo de trás do Sargento. 

Ao me ver ela recuou um passo, mas puxou o fôlego e respondeu.

— Eu sei…. — Disse, com seus longos braços apertando a barra do vestido. — Isso daqui é verdade?

Ela puxou do bolso o anúncio que o Sargento havia escrito e abriu em cima da escrivaninha. 

— É sim. — Coloquei meus óculos escuros para olhar melhor pra garota. Agora de perto, definitivamente vi que não era uma criança, apesar de ainda se vestir como uma. — Quantos anos você tem mesmo?

Ela tentou contar nos dedos e se arriscou a balbuciar uma resposta.

— Se me lembro bem…treze. — O Sargento respondeu. — Foi eu que ajudei no parto.

— Treze anos…. — matutei. — Você não tem nenhum irmão menor? 

— O Mário morreu ano passado, tinha dois anos, e antes dele morreu o Josias, de cinco. — A naturalidade da fala me assustou. 

— Ela não vai servir, não é mais criança. — O Sargento interveio, mas o seu tom de voz não me deixou distinguir se por obrigação ou preocupação.

— Não é você quem define isso. Diga-me, você já sangrou pela primeira vez? — Ela olhou pro chão envergonhada, puxando a barra do vestido pra baixo.

— A-ainda não.

O Sargento me olhou de soslaio e balançou a cabeça.

— Ela não vai servir. — disse silabicamente.

— Se não sangrou, ainda é criança.

Ele cerrou os punhos e se aproximou. 

— Você quer se aproveitar que ela precisa disso, seu verme. Disse que só aceitaria se os pais soubessem do risco, o que não é o caso aqui.

Olhei pra menina e vi a chance que precisava. Só a possibilidade de não conseguir o dinheiro já havia deixado seus olhos marejados. Ele não se dobraria pela lógica, pois era cruel demais. Mas e pela clemência?

— Bom, infelizmente não vou poder ajudá-la. — O Sargento bufou ao me ouvir chamar aquilo de ajuda. — Vai ter que arrumar dinheiro pra sua mãe de outra forma.

As sobrancelhas dela arquearam e ela esfregou os olhos tentando conter o que estava por vir, mas não conseguiu. Começou a chorar. O ranho escorreu pelo nariz e se juntou às lágrimas na ponta do queixo.

— P-por favor…— gritava em meio aos soluços. — sem isso mainha vai morrer. 

— Não reclame comigo, reclame com ele. — E apontei para o Sargento.

Ela caiu no chão e rastejou aos seus pés implorando. Suas lágrimas e catarro começaram a deixar manchas na barra da sua calça. Do jeito que chorava agora, parecia ter bem menos que seus treze anos. 

— Por favor, vá embora… — Ele tentou levantá-la, mas ela se debateu e voltou aos seus pés. 

— Sargento, ninguém mais vai aparecer. — Me aproximei dele e coloquei a mão em meu ombro. Seus olhos demonstravam tanta pena que pensei que seria o próximo a chorar. — Tem que ser ela, não temos mais tempo. 

— Por favor…eu faço…qualquer coisa. — Disse Fernanda em urros abafados pelo tecido da calça.

Ele engoliu seco, deu um longo suspiro e se afastou.

— Tudo bem. — Disse alto o bastante pra cobrir o barulho do choro — Ela pode ir. Mas se alguma coisa acontecer com ela…

— Já sei. Você vai me prender, ou me matar, ou alguma variante entre essas coisas. — Sentei-me à escrivaninha aliviado. Sentia pena da menina, mas estava ficando sem tempo. Mais alguns dias e talvez não encontrássemos mais a criatura, e aí…lá se vai minha recompensa…  — Vá chamar o Padre. Saímos assim que ele chegar. O caminho é longo e temos que preparar a armadilha.

Mal terminei de falar e o Sargento saiu pela porta a passos largos. Possivelmente tinha medo de voltar atrás. A garota ainda soluçava, mas as lágrimas pararam gradualmente. 

— Você tem medo de morrer? — perguntei quase inquisitivo, baixando o óculos para encará-la. Sentia que podia enxergar a verdade das pessoas quando olhava sem as lentes. Ela balançou a cabeça, enquanto limpava o rosto com a camisa. — Pois deveria. 

 

☀︎ 

A tarde começava a morrer quando terminamos de montar a armadilha. Coloquei Fernanda próxima a entrada da mata onde vimos o Capelobo pela primeira vez e formei um círculo de sal grosso ao seu redor. Já havia explicado o plano três vezes durante o caminho, mas para garantir repeti mais uma vez as instruções:

— Lembra de fechar os olhos. Quando ele se aproximar, vai tentar te agarrar. — Apesar de eu ter explicado durante a viagem, seu olhar me dizia que não havia entendido completamente. Estiquei meu braços como se fosse abraçá-la, mas parei com eles no ar. — Não precisa ter medo, ele vai ficar assim, parado. Quando isso acontecer, eu vou gritar e você vai?...

Ela ainda precisou pensar por dois segundos antes de responder, o que me fez me questionar se estava prestando atenção.

— M-me abaixar! — A voz saiu fraca. De cabeça baixa, ela roçava os pés rachados como se quisesse limpar a sola.

— Muito bem. — pensei em abrir um sorriso para acalmá-la, mas isso serviria mais para assustar, então continuei sério. — E não abra os olhos por nada. Não precisa ter medo, vamos estar logo atrás da ribanceira.

Peguei duas carabinas na minha égua e cruzei a estrada. Quando cheguei na ribanceira me deparei com o Padre e o Sargento em uma disputa de reza. De um lado, o clérigo rezava o terço com uma velocidade surpreendente. Do outro lado, o Sargento apoiava a testa no cano da carabina que não havia largado desde que saímos da cidade. Orava o pai nosso, única oração que conhecia.

— O papel dos dois… — deslizei no barro pra ficar bem no meio, fazendo as orações cessarem. Dei uma das carabinas ao Padre. Ele pôs o terço no pescoço e manuseou a arma destrambelhado. — É atirar nos jarros de água benta caso algo dê errado.

Logo acima de Fernanda haviam três jarros de barro, suspensos por cordas amarradas em duas árvores que cresciam para fora da mata. O certo era não precisar usá-los, mas raramente as caçadas saíam como planejado.

— Você vai fazer o que? — Perguntou o Padre, tentando achar o jeito mais confortável de se deitar na ribanceira com a carabina.

Eu dobrei minha arma e vi a última bala de prata que havia trazido comigo reluzir no começo do cano.

— Matar o desgraçado… — e conseguir minha recompensa. Mas para isso, não podia errar. Caso contrárionem queria pensar. Olhei pro punhal embainhado na cintura e senti um arrepio. A ideia de me aproximar de um Capelobo não me agradava nem um pouco. Uma sequência de cenas do meu corpo esmagado em seus braços me invadiu a mente. Respirei fundo e balancei a cabeça, afastando os pensamentos. Tinha que me concentrar…mas em que exatamente? A noite já havia caído, e nem sinal do Capelobo. Comecei a duvidar se treze anos era idade suficiente para atrair o bicho. Teria sido uma escolha acertada? Mas o que poderia ter feito?. Nunca precisei usar uma criança de isca antes. A essa altura, só me restava esperar. 

O Padre já havia acendido um cigarro, e a fumaça cinza que jogava pro ar contrastava com a escuridão da noite. Do meu lado esquerdo, o Sargento segurava a carabina com firmeza, tentando conter os tremores. Na nossa frente, um pouco depois da cerca, um grupo de vacas magras se aninhava sob um pé de manga. Era época da fruta, mas a seca havia minado a força da árvore, transformando seus frutos em pequenas bolotas verdes. As vacas ruminavam essas bolinhas com indignação. 

Foi quando uma das mais magras veio em direção à cerca, mas parou no meio do caminho. Suas companheiras levantaram a cabeça de orelha em pé. Os curiós levantaram voo e logo depois as vacas dispararam pro meio do pasto.

— O que é isso? — o Padre perguntou apagando o cigarro com um pisão.

— Está vindo… — virei-me pro outro lado da estrada, engatilhando a carabina. Os dois me acompanharam. A noite se calou e deu espaço pro vento sussurrar. Então começamos a ouvir passos quebrando as folhas secas da mata. Vinha devagar, e dessa vez não urrava como aquele dia. Tava escabreado. O barulho chegava perto, e logo senti um cheiro de carniça arder meu nariz.

Vi seus olhos lúgubres brilhando na escuridão, apenas um passo mata à dentro. Fernanda tapou os olhos com as mãos calejadas, bem a tempo de não o ver caminhar pra fora das árvores. 

O Sargento e o Padre tremeram sob as carabinas quando viram o Capelobo deu os primeiros passos para fora da floresta. Graças ao último encontro, seus pelos eram menos densos, mas continuavam cobrindo todo seu corpo. Ele se aproximou de Fernanda, virando a cabeça pro lado para analisá-la. Ela tremia, mas continuava com os olhos tampados. O bicho deu uma volta nela, farejando o seu entorno. Achei que ia ficar só nessa, mas quando dei fé ele abriu os braços. Por um segundo achei que a barreira não ia funcionar, pois fechou o abraço muito rápido, mas ele ficou paralisado antes de conseguir tocá-la. Sem entender o que tava acontecendo, ele continuou forçando os braços, mas não avançou nem um centímetro. Seus olhos brilhavam de determinação. Parecia até que tava hipnotizado. Quando as coisas se alinharam, eu subi a ribanceira e me ajoelhei gritando:

— ABAIXA — Mas Fernanda ficou imóvel. Quando ela não obedeceu eu engoli seco, achando que ele ia virar em mim, mas nem pareceu me notar. Levantei a carabina e gritei mais uma vez. Nada aconteceu.  

Achei que ela não tinha ouvido nada, mas pelo visto só tinha entendido errado. Quando dei fé, ela tirou a mão dos olhos. Primeiro olhou para o chão, mas quando levantou o olhar se deparou com uma criatura de mais de dois metros tentando agarrá-la. Nem imagino o tamanho do choque. Havia dito pra ela tampar os olhos pra não ficar paralisada, mas algo ainda pior aconteceu. Um líquido amarelo escorreu por suas pernas trêmulas e afinou o círculo de sal. 

Foi então que os braços do Capelobo começaram a avançar lentamente. Do meu lado, o Padre segurava a carabina com olhos tão arregalados que pensei que fossem saltar da cara. Esse é o problema de levar muita gente pra uma caçada. Ao ver os braços avançarem, o Padre atirou sem esperar ordens. Um rastro de folhas se mexendo na mata mostrou que seu tiro passou longe. O recuo da arma o jogou pra trás e ele rolou ribanceira abaixo.  Ia xingá-lo, mas antes de conseguir foi a vez do Sargento. Ele puxou o gatilho, mas acabou esquecendo dos jarros e atirou por instinto no Capelobo. A criatura nem se importou. Não tirava os olhos de Fernanda, que não tirava os olhos dele. Os dois pareciam se hipnotizar mutuamente. 

Naquela distância, supus que o umbigo do Capelobo estava alinhado com a nuca dela. Meu dedo foi ao gatilho. 

— ABAIXA, PORRA! — Nada, outra vez. A carabina do Sargento havia dado pane, e ele não conseguia recarregar.

Uma bala de prata podia facilmente atravessar a cabeça de uma criança com força suficiente pra causar estrago do outro lado. Então por que eu não conseguia atirar?. Minhas mãos seguraram a arma com força, mas o dedo não se movia. Os braços do Capelobo avançaram mais. Do meu lado, o Sargento praguejava tentando sanar a pane,enquanto o círculo de sal ia ficando cada vez mais fraco. Tinha que agir. Atira. Atira. Atira. Fechei os olhos, respirei fundo, e então eu puxei o gatilho.

Um clarão iluminou a estrada, e o som da bala sibilou no ar, silenciando o barulho da noite. Senti a carabina me jogando pra trás e por pouco não fui me juntar ao Padre no fim da ribanceira. Eu bem que podia. Estava acabado…

Respirei fundo pra me preparar pra cena, mas quando abri os olhos me peguei com a carabina pra cima. O jarro havia se partido, e a água caiu sobre o corpo da criatura. O problema é que ela também terminou de desfazer o círculo de sal. Com um grunhido, o Capelobo começou a se debater e a girar. Aproveitei o momento e corri até Fernanda, que continuou imóvel quando a peguei nos braços. Atravessei a estrada com passos rápidos e joguei a garota ribanceira abaixo. O tombo pareceu acordá-la, pois logo vi ela rastejando por baixo da cerca e sumindo no pasto.

Antes que conseguisse me virar, um golpe me acertou as costelas. Rolei alguns metros pela estrada antes de parar, sentindo uma dor penetrante invadir o peito. Urrei e cuspi sangue puro no chão, mas mal tive tempo de levantar antes do Capelobo se aproximar de novo. Levei a mão à cinta, mas como estava desorientado não fui rápido o bastante pra fazer o saque rápido. Seus longos braços fortes e peludos me envolveram antes que pudesse desembainhar o punhal. Fiz a maior força que pude para evitar ser esmagado, mas começou a me faltar ar. Quando as vistas começaram a escurecer, ouvi alguém gritar.

— Ei. — Era o Padre. Estava debaixo dos outros jarros e pulava balançando os braços. Suas banhas iam pra cima e pra baixo com os pulos — Vem me pegar seu filho da puta.

O Capelobo ficou desconfiado, mas sua predileção por padres o cegou. Ele me largou e deu um rugido, se virando na direção do clérigo. Caí no chão recuperando o fôlego, puxando tanto ar pela boca que enchi a língua de areia. A criatura chegou rápido no Padre, mas, antes que pudesse abraçá-lo, outra enxurrada de água caiu em sua cabeça. Do outro lado da estrada vi o Sargento segurando a carabina fumacenta, apontando pro lugar certo dessa vez. O Capelobo girou desesperado, jogando os braços pros lados na esperança de golpear o Padre. Mas ele já havia descido a ribanceira e pulado a cerca como se tivesse sessenta quilos a menos.

Novamente de pé, fiquei esperando a criatura. O Capelobo girou com os braços abertos, rolou no chão e se debateu mais algumas vezes antes da água parar de corroer sua pele. Quando se recompôs, eu estava esperando no meio da estrada com o punhal na mão. Ele deu um rugido longo e gutural antes de se jogar sobre mim. Dessa vez, eu também fui em sua direção. Quando estava a ponto de me alcançar, deslizei no chão e passei por baixo dos seus braços. Foi aí que vi seu umbigo se aproximar. Era um pontinho pequeno sem pelos, no meio da barriga peluda. 

Segurei o punhal com as duas mãos acima da cabeça e golpeei. A lâmina entrou fácil, então dei outra punhalada no mesmo ponto, mas antes de conseguir enfiar mais, o Capelobo me acertou um golpe na cabeça. O mundo girou ao meu redor e eu cambaleei por alguns metros, tentando me afastar pra evitar seu abraço. Pra minha sorte, ele parecia mais preocupado com o punhal fincado no umbigo. Tentava de uma maneira curiosa usar suas longas garras para tirar a lâmina. Tudo aquilo e não havia atingido fundo o suficiente. Merda. Tentei me equilibrar em pé, mas a vista continuava a girar. Se demorasse demais, ele podia perceber que não ia morrer e terminar o serviço comigo. Mas ficar de pé era difícil. Parecia que havia tomado todas as cachaças do mundo de uma vez só. Foi quando uma voz surgiu no meio da nossa dança de sobrevivência:

— Rodrigo! — Gritou o Sargento, chamando o Capelobo pelo nome. A palavra foi como um laço, que fez a criatura se virar de imediato. Aproveitando o momento, o Sargento deu outro tiro. Dessa vez, no cabo da adaga, que se enterrou por completo dentro da criatura. 

Ela soltou outro urro, ainda mais gutural e penoso que os outros, e disparou em direção a floresta. Tudo o que consegui ver foi a copa das árvores mexendo conforme ele adentrava a mata. O Sargento ainda ficou um tempo em pé com a mira na floresta, mas colocou a carabina a tiracolo e foi me ajudar. Senti uma dor atravessar meu peito quando me apoiei no seus ombros. No melhor dos casos tinha quebrado uma costela, no pior a costela teria perfurado o pulmão. Mas ainda não era hora de me preocupar com isso..

— Onde estão os outros? — disse pausadamente, tomando tempo para respirar entre as palavras.

O Sargento não respondeu pois logo eles emergiram da ribanceira.

— Conseguiram? — O Padre arquejou ofegante, e quando voltou ao normal seus olhos estavam mais arregalados que antes. Fernanda, que se escondia atrás dele, inclinou a cabeça para me olhar com medo. Ela levou os olhos ao chão e se agarrou à túnica do clérigo. 

— Eu não falei pra você não olhar? — disse sem simpatia. As suas pernas tremiam como um bambu no vento.

— A-achei que tivesse dito pra baixar as mãos. — disse com uma voz de choro. Sem saber ao certo o porquê eu sorri. 

— Vocês mataram ou não, porra? — O Padre repetiu e se benzeu por ter xingado na frente da criança.

— Eu não sei. — O punhal havia entrado, isso era certo, mas e se não tivesse sido o suficiente?. Um Capelobo é mais resistente do que se pode pensar. Uma onda de tosse irrompeu o meu corpo, e havia um pouco de sangue nela. — Mas também não quero ficar pra desco…

Antes que pudesse concluir a frase, o mundo escureceu e se apagou. 

Acordei num colchão confortável. Fazia tempo que não acordava em um. Olhando ao redor reconheci onde estava: a cela. Não sabia quanto tempo havia passado, mas julguei não ser muito. Quando tentei me levantar senti uma pontada de dor na lateral, mas nada que se comparasse à antes. Os meus gemidos de dor atraíram o Sargento.

— Parece que resolveu acordar. — pela primeira vez não estava de uniforme. Assoprava algo numa caneca. Quando colocou do meu lado reconheci: chá. Odeio chá. — Beba, vai se sentir melhor. 

— O que aconteceu? — Perguntei olhando o líquido escuro, ganhando coragem pra beber.

— Você desmaiou depois da caçada. Passou três dias dormindo — Seus olhos me analisavam. Pelo menos dessa vez pensei ter visto preocupação ao invés de estranhamento. — Como está se sentindo? 

— Melhor do que nunca. — Menti e dei um gole no chá. Tinha gosto de merda, mas era bom ter algo aquecendo a garganta. — Já passei noites em cabarés que me custaram mais.

O Sargento deu uma risada que ecoou nas paredes da cela. 

— Falando em cabaré, onde que tá o Padre? e a menina? — perguntei ao lembrar da ajuda que tinham dado.

— O Padre tá na igreja, bem onde um padre deve tá. Desde aquele dia não fala mais do assunto. Ele tá usando o dinheiro da recompensa pra reformar a capela. — Disse com um sorriso de canto. —  Vendeu até o puteiro pra conseguir inteirar o dinheiro. 

Aquela era a primeira vez que eu via um padre se converter.

— E a menina…como era o nome mesmo? — Cocei a cabeça tentando lembrar. Algumas coisas ainda estavam confusas. — Fernanda, lembrei. Onde ela está?

O Sargento tirou o riso da cara e encostou na parede.

— Tá na cidade com a madrinha. — sua voz era pesada. — A mãe morreu na noite da caçada, então ela pegou os quinze mil e se mandou daqui.

O silêncio pairou ingrato entre nós. Dei um gole maior que os outros e terminei o chá. O gosto pareceu mais amargo que nunca. Depois de um longo suspiro eu me levantei com dificuldade.

— E o Capelobo, algum sinal?.

— Algumas quebradeiras de coco encontraram o corpo de um ‘’ bicho grande com cabeça de tamanduá’’ cheio de urubus em volta. — Ele deu ênfase nas aspas. — Falei que era só um tamanduá normal e que elas deviam ter se confundido. Perguntei se tinham visto algum punhal próximo mas elas não mexeram no corpo

— Isso é o de menos. — Encontrei meus óculos escuros onde havia deixado antes da partida, e me senti aliviado por não ter levado. No meio da confusão ele teria virado só o bagaço. — O que é do homem o bicho não come.

O Sargento soltou ar pelo nariz e me entregou um envelope.

— Sua recompensa…foi tudo que sobrou depois de pagar pra um médico vir até aqui. 

Eu o abri e contei as notas. Dez de cem e duas de vinte. E pensar que havia feito tudo aquilo por essa mixaria. Será que eu teria feito algo diferente? De qualquer forma não adiantava mais. No fim das contas, uma caçada é uma caçada.

— Já que meu trabalho tá feito, é hora de eu ir andando. — Coloquei minha camisa e meu gibão que estavam sob uma cadeira. 

— Tem certeza? — disse o Sargento. — O médico disse que quebrou uma costela. Seria bom ficar mais tempo.

Ajeitei meus cabelos pra dentro do chapéu de couro e parei na frente dele.

— Ainda tenho muito o que caçar…os bichos não vão esperar não. — Olhei pra ele com um sorriso e apertei sua mão. — Mas muito obrigado.

Só na saída da cidade que ele respondeu.

— Eu que agradeço, Caçador. — e tirou o chapéu do alto do seu cavalo.

Eu retribui o gesto e segui a estrada. Me afastei pouco quando a sombra de um urubu começou a rodear minha égua. A ave foi baixando, baixando, baixando, até pousar no pito da sela. O cheiro era repulsivo, mas ao invés de reclamar abri um sorriso. Segurava no bico meu punhal ainda reluzente, apesar de sujo. Ele entregou na minha mão e levantou voo. Limpei a sujeira na calça e inspecionei a lâmina. Mais um risco.

Virei-me pro Sargento, que assistia a cena de olhos arregalados. Ele desceu do cavalo meio desajeitado e levou as mãos à boca para gritar:

— Caçador, qual o seu nome? 

Ainda não acreditava que me chamava assim. Que insistente. Também levei as mãos à boca e gritei meu nome. Não sei se ele chegou a ouvir, pois bem na hora uma rajada de vento varreu a estrada e abafou minha voz. Ainda ouvi ele gritar algo, mas as palavras se perderam junto com sua imagem na poeira. Agora já não importava mais.

Acariciei a crina da minha égua, olhando a estrada serpentear pelo mato seco, os pés de coco babaçu e os espinhos. 

— Vai ter que ser cuidadosa, viu? — A cada passo eu sentia uma pontada de dor, mas nada que me fizesse parar. 

Ela relinchou e jogou a cabeça pro ar, como se sentisse o mesmo que eu.

Então o vento soprou novamente e levantou uma nuvem densa de poeira avermelhada. Ajustei o chapéu na cabeça, e por ela eu galopei, em direção a outra caçada. 


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✍️ Autor: Miguel Arcanjo Borges

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4 comentários:

  1. muito bem escrito!! ansioso pra ler mais

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    1. Ficamos felizes que você tenha gostado, saiba mais sobre o autor, clicando em suas redes sociais.

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  2. descrições de ambiente otimas da pra sentir e ver tudo enquanto le

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