sábado, 6 de junho de 2026

Conversa Estranha II - Nem toda prova revela a verdade

Introdução: Quando uma jovem cai do sexto andar, um número desconhecido inicia um jogo mortal que sempre escolhe a próxima vítima.



CAPÍTULO 1 - MENSAGEM APAGADA


A vizinha estava caída no chão em um ângulo estranho, mas com uma sombra de sorriso de quem encontrou a paz. O porteiro corre para socorrê-la, olha para cima e vê o vizinho do 603 na janela da inquilina do 602. Ele puxava os cabelos e andava de um lado para outro até sumir para dentro do apartamento.

O porteiro liga para a polícia, que o orienta a não mexer no corpo nem em nada ao redor, porque uma viatura e uma ambulância já estavam a caminho. O homem olha consternado para a jovem — da mesma idade de sua neta, sempre tão educada e gentil — agora jogada no meio da calçada como se fosse um objeto.


O vizinho surge nervoso e, como sempre, esquisito, falando frases desconexas. Quando faz menção de se aproximar do corpo, o porteiro intervém.

— Calma, afaste-se dela, já chamei a polícia… — diz o porteiro, cauteloso diante da agitação do rapaz.

— Eu falei, eu gritei, eu esmurrei a porta… ela não deveria ter dado mole… — dizia o rapaz, balançando o corpo para frente e para trás.

— Mas o que você fez… vocês namoravam? — perguntou o porteiro, tentando arrancar alguma informação antes que ele fugisse ou surtasse de vez.

— Ela não quis abrir a porta para mim! Eu falei para ela não conversar… ela estava falando com ele… e ele me disse que a mataria…

— Quem? Tinha mais alguém lá? — perguntou o porteiro.

Mas a frase ficou sem resposta. A polícia civil e a militar chegam, juntamente com a ambulância. Apresentam-se dois investigadores com distintivos, quatro militares, um paramédico e um enfermeiro, que constatam a morte da garota.

A polícia militar pega o depoimento dos envolvidos para o boletim de ocorrência e isola o local do crime.

A vizinhança vai acordando e sai para bisbilhotar o que estava acontecendo. Transeuntes vindos de boates ou do trabalho param para ver o cadáver da bonita jovem ao chão, sob uma poça cada vez maior de sangue.

A investigadora do caso — uma mulher alta, de cabelos pretos presos de qualquer jeito, jaqueta escura e olhar atento e sagaz — observa a cena. Ela repara na agitação do rapaz e no olhar desconfiado do porteiro dirigido a ele. Percebe também um arranhão recente no antebraço do vizinho — fino, mas profundo o bastante para parecer marca de luta.

Chama o porteiro de lado, longe do agitado rapaz, que naquele momento está sendo interrogado por um policial militar baixo e com cara de cansado.

— O senhor parece incomodado com algo... sente-se ameaçado? Conhece aquele rapaz? — pergunta em um tom conciliador.

O porteiro, com olhar de pena e ao mesmo tempo determinado, diz:

— Eu o vi nervoso na sacada dela logo depois que o corpo caiu. Quando desceu, disse que tinha avisado para ela não atender a chamada de outra pessoa. Eu acho que…

— Conclua… o que você acha?

Enquanto esperava o que ele iria dizer, a detetive recolhe o celular que já estava no saquinho de evidências e percebe que ainda está ligado. Olha para o porteiro, como se o incentivasse a dizer o que ela já pressentia.

— Acho que o vizinho do 603 a jogou pela janela.

Ela então volta o olhar para o celular da garota. Na tela ainda acesa, uma conversa aberta. E uma única linha: Mensagem apagada.

 

Teaser do próximo capítulo

Antes que a polícia entenda o jogo, ele fará outra vítima — e desaparecerá novamente.


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