sexta-feira, 5 de junho de 2026

Quando a Mente Falha: Terror Psicológico Minimalista

INTRODUÇÃO:  

Você confia na sua própria mente?

E se, de repente, ela começasse a falhar —
números errados, padrões quebrados, lógica que já não faz sentido?

Esta é uma história sobre o momento em que tudo aquilo que você acredita começa a se desfazer… de dentro para fora.



 

A parte que sobra

 

Laura já não sabia há quanto tempo estava ali. O caderno aberto mostrava a mesma equação há horas — uma função quase simbiótica que se dobrava sobre si mesma, como se estivesse tentando descrever algo que não parava de mudar. Uma equação diferencial, o professor tinha dito — uma relação entre uma coisa e a forma como ela muda. Mas aquilo já não fazia sentido, ou era apenas seu cérebro entrando em parafuso, porque a função parecia se comportar… diferente.

 A cada vez que ela refazia os passos — derivar, substituir, tentar isolar — surgia uma ligeira alteração, como se o próprio problema estivesse reagindo à tentativa de resolvê-lo. Estava ficando louca.


— Laura, vá dormir, já são 3h da manhã!

3h da manhã?? Que isso!! Eu sentei pra estudar às 19h, quando cheguei do serviço... putz! O tempo voou.

— Daqui a pouco, mãe, já estou terminando, tenho prova essa semana. Tem café ainda?? — gritou para que a mãe ouvisse.

— Tem. E come um pedaço de bolo pra não ficar com dor no estômago. Boa noite, e vê se não demora — disse a mãe, bocejando lá do quarto.

 Laura abaixou a luminosidade do monitor e se levantou, ainda remoendo a equação diferencial, tentando entender onde havia mudado o fator, mas lembrou-se do professor dizendo que haveria infinitas soluções. Pegou a xícara de café e um pedaço de bolo de cenoura com calda de chocolate, sentou-se perto da bancada e continuou ruminando. Ela só precisava de uma solução para a apresentação de seu trabalho.

 Voltou, sentou-se e regulou novamente o monitor — e tomou um susto. A solução estava escrita no final da página. Como? Ela ainda não tinha estabelecido as variáveis... Olhou mais atentamente, e estava lá, clara e plausível, a resposta de que precisava para a apresentação.

 Buscou por malware para verificar se o monitor estava clonado ou se havia acessos simultâneos no notebook. Nada. Ninguém havia mexido… confusa, olhou para o monitor, agora totalmente alerta.

 Plaft. O som de um copo se quebrando no chão a assusta.

 — Mãe!? — diz, levantando-se e indo para a cozinha. — Acho que estou ficando louca...

 Ao chegar à cozinha, vê sua mãe abaixada, juntando os cacos, mas não era apenas ela que os recolhia. Uma figura ainda indistinta, também abaixada, pegava os mesmos fragmentos lentamente — uma simbiose perfeita.

 A mãe estava alheia à criatura que a imitava. A criatura cantarolava baixinho — "boi, boi, boi... boi da cara preta... vem pegar a Laura que tem medo de..." — os olhos fixos nos cacos de vidro, ou talvez em nada. Ou talvez em Laura. No segundo seguinte, a presença já estava diante dela, deixando Laura estática e chocada, de boca escancarada, incapaz de emitir qualquer som.

 — Laura, minha filha, você anda bem desastrada... — dizem a mãe e a criatura ao mesmo tempo. A criatura estava à sua frente, enquanto a mãe, atrás, varria com extremo cuidado os fragmentos menores.

 A criatura era algo que não se fixava, como se a forma não aceitasse ficar parada, envolta em uma nebulosa que variava entre o cinza escuro e o preto. Onde deveria estar o rosto, havia uma tela com gráficos e equações matemáticas infinitas, organizadas em comandos que se alternavam em imagens confusas de acontecimentos de sua vida — passado, presente e futuro.

 Laura beliscou forte o próprio braço. Sentiu dor, não estava sonhando. Tentava processar aquela realidade estranha, mas tudo parecia irreal. Deu um passo à frente, e a criatura recuou em direção à mãe, imitando-lhe as ações.

 — Mãe, a senhora está bem? Sente algo?

A mãe e a criatura se viram e, em uníssono, dizem:

— Laura, minha filha… quando não encaixa, a gente tem que ver o que tá errado… e corrigir.

E a criatura repete, de forma enigmática:

— …e corrigir.

 Laura associou a fala ao problema na tela. Mas como? Sua mãe não entendia nada de matemática. Naquele momento, porém, isso não era mais importante do que afastar a criatura de perto da mãe, que não parecia acordada.

 Ela então pegou a mão da mãe e a puxou para frente. A criatura infiltra-se em parte no braço dela. A mãe hesitou por um instante, como se tivesse perdido o tempo do próprio movimento. O monitor deu um apito. Laura correu até ele. O problema se reorganizou.

 Voltou para a cozinha e puxou a mãe novamente. Esta a olhou — e não ao mesmo tempo. Seus olhos saíram de órbita e voltaram, ao mesmo tempo em que a boca emitia sons semelhantes à reiniciação de um sistema. A criatura agora já não se distinguia mais dela. O monitor apitou novamente.

 Laura correu para o quarto. Na tela do monitor, havia uma mensagem.

— Laura? O que está acontecendo? Me ajuda a sair daqui?

Horrorizada, ela olhou para o prompt na tela e depois para a figura materna parada à porta, observando-a em expectativa.

 Laura faz um carinho na tela, desliga o monitor e diz:

 

— Boa noite, mamãe.


A parte que sobra — Registro de Laura
 

Esse trimestre foi pesado demais, estágio na reta final com relatórios e mais relatórios sem fim; provas de final de semestre, TCC precisando apenas de uma única resposta plausível para conclusão. Preciso de mais tempo. Há oportunidades surgindo e, se eu conseguir apresentar meu projeto, será sensacional.

Ao entrar em casa, escuto minha mãe conversando com a vizinha enquanto faz a janta. Um zumbido fino incomoda meu ouvido, junto com um leve desfoque do ambiente. Deve ser tempo demais de fone. Tiro o fone e desligo o celular na playlist das últimas aulas do Professor Ambrósio.

O zumbido diminui, mas não some completamente.

Antes de entrar para o quarto, dou uma passada na cozinha, onde minha mãe me recebe com um abraço, beija minha bochecha e, ao mesmo tempo, aponta para a mesa já posta para o jantar enquanto comenta com a vizinha a última fofoca de comadres. Saio rápido, antes que ela me puxe para a conversa. Mamãe é assim, adora falar sobre mim, que falem de mim e, principalmente, que falem comigo.

Vou para o quarto e deixo o notebook ligando enquanto tiro a roupa. Vou tomar um banho, comer rapidinho a janta de dona Marlene e voltar para a continuação da resolução do problema diferencial.

Às 19h me sento para refazer cálculos, inserir dados, testar e comparar com os resultados anteriores. Um novo desfoque vem, seguido de um zumbido breve, no mesmo instante em que o monitor acende e se conecta ao wi‑fi.

Esse projeto envolve a criação de um protótipo cujo componente, semelhante a um processador, dissipe calor sem queimar o equipamento. Ao demonstrar a possibilidade de uso em um tempo inferior ao dos modelos de mercado, posso conseguir patrocínio para uma bolsa de mestrado. Senti uma comichão percorrer todo o corpo. Era a certeza do sucesso. Mas a fórmula estava incompleta:

Caixa de Texto: dT/dt  = k (T"amb" -T)

 

 


Separando as variáveis:


Integrando:


Aplicando exponencial:


Reorganizando:


 

Nesse momento, minha mãe entra no quarto silenciosamente, para não me incomodar, e deixa um leite quente na escrivaninha. Ajeita o porta-copos, coloca a xícara, beija minha testa e sai, levando consigo as latinhas de energético. Antes de sair, diz:

— Laurinha, já tem meses que você está com o sono atrasado. Já são 23h. Durma, descanse, amanhã sua cabeça vai estar mais clara.

Sem tirar os olhos da tela, respondo:

— Só mais meia hora, dona Marlene, e já vou dormir. A bênção. Durma bem.

Ela sai. Escuto a porta do quarto se fechando.

Vou tentar de outro jeito. Abri o caderno e tive a impressão de que, fazendo com as próprias mãos, conseguiria detectar onde estava errando. Lembrei do professor dizendo que havia uma relação entre uma coisa e a forma como ela muda.

A função deveria tender ao equilíbrio. Sempre fazia isso, mas, dessa vez, não. O termo exponencial não decaía — ele se deformava. Franzi a testa. Aquilo não era comportamento de um sistema térmico. Eu já tinha visto algo parecido… em outro contexto. Em um gráfico que o professor mostrou por curiosidade, semanas atrás. Algo sobre pontos em que a função simplesmente… não se comportava mais.

Interrompi aquela fórmula que se distorcia e, com os novos números, acreditei que tinha chegado a uma conclusão. Então olhei para o monitor e me assustei: a tela duplicava, piscava e depois voltava à normalidade, ao mesmo tempo em que eu sentia uma energia estática subir pelo braço até a cabeça. Pelo espelho do quarto, vi que meu cabelo reagia àquilo. Tudo então se estabilizou, mas, diante de mim, a fórmula se desenvolvia sozinha, sem comando, derivava, substituía, isolava. Que loucura é essa? Me belisquei e senti dor. Não, não estou sonhando.

Nesse momento, minha mãe grita do quarto para que eu vá dormir; já eram três da madrugada.

Três horas? Que isso… Agorinha mesmo eram 19. Respondi que já ia dormir e perguntei se ainda tinha café, porque, mais do que nunca, eu precisava me manter atenta — a cafeína ajudaria. Ela disse que tinha e que eu comesse um pedaço de bolo.

Abaixei a luminosidade do monitor. Senti um peso no pré-frontal. Preciso de cafeína, pensei. Levantei; o zumbido voltou, mas não me importei. Tinha algo mais importante para refletir, como o que acabara de acontecer.

Peguei um generoso copo de café e comi um pedaço de bolo na bancada da cozinha. Eu já estava nisso há algum tempo. Precisava apresentar uma solução e, mais que isso, precisava me destacar.

Voltei, sentei-me e regulei novamente o monitor; minha cabeça ficou ligeiramente mais leve, mas levei um susto. A solução estava escrita no final da página. Como? Eu ainda não tinha estabelecido as variáveis… Olhei mais atentamente e estava lá, clara e plausível, a resposta de que precisava para a apresentação.

Gente, alguém clonou meu computador? Colocou um aplicativo espião? Busquei por malware para verificar se havia acessos simultâneos no notebook ou se o sistema estava comprometido. Nada. Ninguém havia mexido. Confusa, encarei o monitor, agora totalmente alerta. O que eu via era absurdo — e brilhante. Aquilo me colocaria em um nível próximo da excelência.

Plaft. O som de um copo se quebrando no chão me assusta.

— Mãe? — pergunto, preocupada, levantando-me. Nesse momento, o desfoque volta, acompanhado de um zumbido breve e piscadas involuntárias. Vou em direção à cozinha; preciso contar à minha mãe o que está acontecendo. Talvez eu precise mesmo procurar ajuda. — Acho que estou ficando louca…

Paro ao chegar à cozinha. Vejo minha mãe abaixada, juntando os cacos, mas não era apenas ela que os recolhia. Uma figura ainda indistinta, também abaixada, pegava os mesmos fragmentos lentamente, em uma simbiose perfeita. Minha mãe estava alheia à criatura que a imitava. A criatura cantarolava baixinho, em uma voz duplicada: “boi, boi, boi... boi da cara preta... vem pegar a Laura que tem medo de...”, os olhos fixos nos cacos de vidro. Ou talvez em nada. Ou talvez em mim.

No segundo seguinte, a presença já estava diante de mim, deixando-me paralisada e chocada. Escancarei a boca, mas fui incapaz de emitir qualquer som. Sentia um misto de fascínio e horror.

— Laura, minha filha, você anda bem desastrada... — dizem a mãe e a criatura ao mesmo tempo. A criatura estava à minha frente, enquanto minha mãe, atrás, varria com extremo cuidado e lentidão os fragmentos menores. Notei que seus braços davam espasmos curtos.

Já a criatura era algo que não se fixava, como se sua forma se recusasse a permanecer estável, envolta em uma nebulosa que variava entre o cinza escuro e o preto, preenchida por partículas luminosas e tridimensionais. Onde deveria estar o rosto, havia uma espécie de tela holográfica com gráficos e equações matemáticas infinitas, organizadas em comandos que se alternavam, derivavam, substituíam, isolavam-se em imagens confusas de acontecimentos da minha vida — passado, presente e futuro, números, equações, infinitas possibilidades.

Belisquei forte meu braço. Senti dor, não estava sonhando. Precisava de um tempo. Tentei processar aquela realidade estranha, mas tudo parecia irreal demais. Eu precisava tocar aquilo. Era real? A curiosidade venceu o medo. Dei um passo à frente, e a criatura recuou em direção à minha mãe, imitando os seus movimentos.

Meu Deus… minha mãe estava ali, tão apática. A criatura se posicionou ao redor dela, como se estivesse regulando seus movimentos.

— Mãe, a senhora está bem? Sente algo?

Minha mãe e a criatura se viram e, em uníssono, dizem:

— Laura, minha filha… quando não encaixa, a gente tem que ver o que tá errado… e corrigir.

E a criatura repete, de forma enigmática:

— …e corrigir.

Deu um estalo na minha cabeça. A fórmula? Elas se referiam à equação? Precisava conferir. Corri para o quarto. Até então, a criatura não tinha feito nada com minha mãe… eu podia deixá-las por um instante. Encontrei algo grandioso. Será? Elas falavam do problema na tela. Mas como? Minha mãe não entendia nada de matemática.

Não. Não vou deixar minha mãe à mercê disso.

Naquele momento, me dei conta de que eu estava barganhando a vida dela com algo que nem sabia se era real. Precisava afastar a criatura, tirá-la de perto da minha mãe, que sequer parecia consciente.

Segurei a mão dela e a puxei para perto de mim. A criatura imediatamente se infiltrou em parte do braço dela. Olhei e vi que ela hesitou por um instante, como se tivesse perdido o tempo do próprio movimento. O monitor emitiu um apito. Senti um frisson, a energia estática vibrando novamente pelo meu corpo. Precisava entender. Corri de volta para o quarto e, na tela, o problema havia se reorganizado.

Voltei para a cozinha e puxei minha mãe novamente. Ela e a criatura me olharam com ausência — e não ao mesmo tempo. Seus olhos saíram de órbita e voltaram, ao mesmo tempo em que a boca emitia sons semelhantes à reiniciação de um sistema. A criatura agora já não se distinguia mais. Eram uma unidade. Soltei as mãos de minha mãe. O monitor apitou outra vez. Senti tudo de uma vez zumbido, piscadela involuntária, pequeno choque e uma necessidade visceral de ir fazer a checagem.

Corri para o quarto. Na tela do monitor, havia uma mensagem ilógica.

— Laura? O que está acontecendo? Me ajuda a sair daqui?

Vi horrorizada o prompt na tela, não querendo acreditar, olhei para a figura materna parada à porta, observando-a em expectativa. Ela me olhava de volta e eu a reconheci. Finalmente havia conseguido.

Passei carinhosamente a mão pelo monitor, me sentindo amada. Sabia que minha mãe sempre estaria ali por mim. Desliguei o monitor.

— Boa noite, mamãe.

 

 

 

 

 


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