Esta é uma história sobre o momento em que tudo aquilo que você acredita começa a se desfazer… de dentro para fora.
A parte que sobra
Laura já não sabia há quanto
tempo estava ali. O caderno aberto mostrava a mesma equação há horas — uma
função quase simbiótica que se dobrava sobre si mesma, como se estivesse
tentando descrever algo que não parava de mudar. Uma equação diferencial, o professor
tinha dito — uma relação entre uma coisa e a forma como ela muda. Mas aquilo já
não fazia sentido, ou era apenas seu cérebro entrando em parafuso, porque a
função parecia se comportar… diferente.
— Laura, vá dormir, já são 3h da manhã!
3h da manhã?? Que isso!! Eu sentei pra estudar às 19h, quando cheguei do
serviço... putz! O tempo voou.
— Daqui a pouco, mãe, já estou terminando, tenho prova essa semana. Tem café
ainda?? — gritou para que a mãe ouvisse.
— Tem. E come um pedaço de bolo
pra não ficar com dor no estômago. Boa noite, e vê se não demora — disse a mãe,
bocejando lá do quarto.
A mãe e a criatura se viram e, em
uníssono, dizem:
— Laura, minha filha… quando não
encaixa, a gente tem que ver o que tá errado… e corrigir.
E a criatura repete, de forma
enigmática:
— …e corrigir.
— Laura? O que está acontecendo?
Me ajuda a sair daqui?
Horrorizada, ela olhou para o
prompt na tela e depois para a figura materna parada à porta, observando-a em
expectativa.
— Boa noite, mamãe.
A parte que sobra
— Registro de Laura
Esse trimestre foi pesado demais,
estágio na reta final com relatórios e mais relatórios sem fim; provas de final
de semestre, TCC precisando apenas de uma única resposta plausível para
conclusão. Preciso de mais tempo. Há oportunidades surgindo e, se eu conseguir
apresentar meu projeto, será sensacional.
Ao entrar em casa, escuto minha
mãe conversando com a vizinha enquanto faz a janta. Um zumbido fino incomoda
meu ouvido, junto com um leve desfoque do ambiente. Deve ser tempo demais de
fone. Tiro o fone e desligo o celular na playlist das últimas aulas do
Professor Ambrósio.
O zumbido diminui, mas não some
completamente.
Antes de entrar para o quarto,
dou uma passada na cozinha, onde minha mãe me recebe com um abraço, beija minha
bochecha e, ao mesmo tempo, aponta para a mesa já posta para o jantar enquanto
comenta com a vizinha a última fofoca de comadres. Saio rápido, antes que ela
me puxe para a conversa. Mamãe é assim, adora falar sobre mim, que falem de mim
e, principalmente, que falem comigo.
Vou para o quarto e deixo o
notebook ligando enquanto tiro a roupa. Vou tomar um banho, comer rapidinho a
janta de dona Marlene e voltar para a continuação da resolução do problema
diferencial.
Às 19h me sento para refazer
cálculos, inserir dados, testar e comparar com os resultados anteriores. Um
novo desfoque vem, seguido de um zumbido breve, no mesmo instante em que o
monitor acende e se conecta ao wi‑fi.
Esse projeto envolve a criação de
um protótipo cujo componente, semelhante a um processador, dissipe calor sem
queimar o equipamento. Ao demonstrar a possibilidade de uso em um tempo
inferior ao dos modelos de mercado, posso conseguir patrocínio para uma bolsa
de mestrado. Senti uma comichão percorrer todo o corpo. Era a certeza do
sucesso. Mas a fórmula estava incompleta:
![]() |
Separando as variáveis:
Integrando:
Aplicando exponencial:
Reorganizando:
Nesse momento, minha mãe entra no
quarto silenciosamente, para não me incomodar, e deixa um leite quente na
escrivaninha. Ajeita o porta-copos, coloca a xícara, beija minha testa e sai,
levando consigo as latinhas de energético. Antes de sair, diz:
— Laurinha, já tem meses que você
está com o sono atrasado. Já são 23h. Durma, descanse, amanhã sua cabeça vai
estar mais clara.
Sem tirar os olhos da tela,
respondo:
— Só mais meia hora, dona
Marlene, e já vou dormir. A bênção. Durma bem.
Ela sai. Escuto a porta do quarto
se fechando.
Vou tentar de outro jeito. Abri o
caderno e tive a impressão de que, fazendo com as próprias mãos, conseguiria
detectar onde estava errando. Lembrei do professor dizendo que havia uma
relação entre uma coisa e a forma como ela muda.
A função deveria tender ao
equilíbrio. Sempre fazia isso, mas, dessa vez, não. O termo exponencial não
decaía — ele se deformava. Franzi a testa. Aquilo não era comportamento de um
sistema térmico. Eu já tinha visto algo parecido… em outro contexto. Em um
gráfico que o professor mostrou por curiosidade, semanas atrás. Algo sobre
pontos em que a função simplesmente… não se comportava mais.
Interrompi aquela fórmula que se
distorcia e, com os novos números, acreditei que tinha chegado a uma conclusão.
Então olhei para o monitor e me assustei: a tela duplicava, piscava e depois
voltava à normalidade, ao mesmo tempo em que eu sentia uma energia estática
subir pelo braço até a cabeça. Pelo espelho do quarto, vi que meu cabelo reagia
àquilo. Tudo então se estabilizou, mas, diante de mim, a fórmula se desenvolvia
sozinha, sem comando, derivava, substituía, isolava. Que loucura é essa? Me
belisquei e senti dor. Não, não estou sonhando.
Nesse momento, minha mãe grita do
quarto para que eu vá dormir; já eram três da madrugada.
Três horas? Que isso… Agorinha
mesmo eram 19. Respondi que já ia dormir e perguntei se ainda tinha café,
porque, mais do que nunca, eu precisava me manter atenta — a cafeína ajudaria.
Ela disse que tinha e que eu comesse um pedaço de bolo.
Abaixei a luminosidade do
monitor. Senti um peso no pré-frontal. Preciso de cafeína, pensei. Levantei; o
zumbido voltou, mas não me importei. Tinha algo mais importante para refletir,
como o que acabara de acontecer.
Peguei um generoso copo de café e
comi um pedaço de bolo na bancada da cozinha. Eu já estava nisso há algum
tempo. Precisava apresentar uma solução e, mais que isso, precisava me
destacar.
Voltei, sentei-me e regulei
novamente o monitor; minha cabeça ficou ligeiramente mais leve, mas levei um
susto. A solução estava escrita no final da página. Como? Eu ainda não tinha
estabelecido as variáveis… Olhei mais atentamente e estava lá, clara e plausível,
a resposta de que precisava para a apresentação.
Gente, alguém clonou meu
computador? Colocou um aplicativo espião? Busquei por malware para verificar se
havia acessos simultâneos no notebook ou se o sistema estava comprometido.
Nada. Ninguém havia mexido. Confusa, encarei o monitor, agora totalmente alerta.
O que eu via era absurdo — e brilhante. Aquilo me colocaria em um nível próximo
da excelência.
Plaft. O som de um copo se
quebrando no chão me assusta.
— Mãe? — pergunto, preocupada,
levantando-me. Nesse momento, o desfoque volta, acompanhado de um zumbido breve
e piscadas involuntárias. Vou em direção à cozinha; preciso contar à minha mãe
o que está acontecendo. Talvez eu precise mesmo procurar ajuda. — Acho que
estou ficando louca…
Paro ao chegar à cozinha. Vejo
minha mãe abaixada, juntando os cacos, mas não era apenas ela que os recolhia.
Uma figura ainda indistinta, também abaixada, pegava os mesmos fragmentos
lentamente, em uma simbiose perfeita. Minha mãe estava alheia à criatura que a
imitava. A criatura cantarolava baixinho, em uma voz duplicada: “boi, boi,
boi... boi da cara preta... vem pegar a Laura que tem medo de...”, os olhos
fixos nos cacos de vidro. Ou talvez em nada. Ou talvez em mim.
No segundo seguinte, a presença
já estava diante de mim, deixando-me paralisada e chocada. Escancarei a boca,
mas fui incapaz de emitir qualquer som. Sentia um misto de fascínio e horror.
— Laura, minha filha, você anda
bem desastrada... — dizem a mãe e a criatura ao mesmo tempo. A criatura estava
à minha frente, enquanto minha mãe, atrás, varria com extremo cuidado e
lentidão os fragmentos menores. Notei que seus braços davam espasmos curtos.
Já a criatura era algo que não se
fixava, como se sua forma se recusasse a permanecer estável, envolta em uma
nebulosa que variava entre o cinza escuro e o preto, preenchida por partículas
luminosas e tridimensionais. Onde deveria estar o rosto, havia uma espécie de
tela holográfica com gráficos e equações matemáticas infinitas, organizadas em
comandos que se alternavam, derivavam, substituíam, isolavam-se em imagens
confusas de acontecimentos da minha vida — passado, presente e futuro, números,
equações, infinitas possibilidades.
Belisquei forte meu braço. Senti
dor, não estava sonhando. Precisava de um tempo. Tentei processar aquela
realidade estranha, mas tudo parecia irreal demais. Eu precisava tocar aquilo.
Era real? A curiosidade venceu o medo. Dei um passo à frente, e a criatura
recuou em direção à minha mãe, imitando os seus movimentos.
Meu Deus… minha mãe estava ali,
tão apática. A criatura se posicionou ao redor dela, como se estivesse
regulando seus movimentos.
— Mãe, a senhora está bem? Sente
algo?
Minha mãe e a criatura se viram
e, em uníssono, dizem:
— Laura, minha filha… quando não
encaixa, a gente tem que ver o que tá errado… e corrigir.
E a criatura repete, de forma
enigmática:
— …e corrigir.
Deu um estalo na minha cabeça. A
fórmula? Elas se referiam à equação? Precisava conferir. Corri para o quarto.
Até então, a criatura não tinha feito nada com minha mãe… eu podia deixá-las
por um instante. Encontrei algo grandioso. Será? Elas falavam do problema na
tela. Mas como? Minha mãe não entendia nada de matemática.
Não. Não vou deixar minha mãe à
mercê disso.
Naquele momento, me dei conta de
que eu estava barganhando a vida dela com algo que nem sabia se era real.
Precisava afastar a criatura, tirá-la de perto da minha mãe, que sequer parecia
consciente.
Segurei a mão dela e a puxei para
perto de mim. A criatura imediatamente se infiltrou em parte do braço dela.
Olhei e vi que ela hesitou por um instante, como se tivesse perdido o tempo do
próprio movimento. O monitor emitiu um apito. Senti um frisson, a energia
estática vibrando novamente pelo meu corpo. Precisava entender. Corri de volta
para o quarto e, na tela, o problema havia se reorganizado.
Voltei para a cozinha e puxei minha
mãe novamente. Ela e a criatura me olharam com ausência — e não ao mesmo tempo.
Seus olhos saíram de órbita e voltaram, ao mesmo tempo em que a boca emitia
sons semelhantes à reiniciação de um sistema. A criatura agora já não se
distinguia mais. Eram uma unidade. Soltei as mãos de minha mãe. O monitor
apitou outra vez. Senti tudo de uma vez zumbido, piscadela involuntária,
pequeno choque e uma necessidade visceral de ir fazer a checagem.
Corri para o quarto. Na tela do
monitor, havia uma mensagem ilógica.
— Laura? O que está acontecendo?
Me ajuda a sair daqui?
Vi horrorizada o prompt na tela,
não querendo acreditar, olhei para a figura materna parada à porta,
observando-a em expectativa. Ela me olhava de volta e eu a reconheci.
Finalmente havia conseguido.
Passei carinhosamente a mão pelo
monitor, me sentindo amada. Sabia que minha mãe sempre estaria ali por mim.
Desliguei o monitor.
— Boa noite, mamãe.
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