sábado, 23 de maio de 2026

A colecionadora - nem toda brincadeira tem fim

INTRODUÇÃO: As manhãs de domingo costumam ser iguais. Família reunida, comida sendo preparada, crianças correndo pelo quintal. Mas nem toda brincadeira termina.


A COLECIONADORA -
Nem toda brincadeira tem fim


As manhãs de domingo são as melhores da semana, porque todos os primos e primas estão reunidos na casa dos avós. É fofoca feminina em dia, enquanto corta frango, aperta o arroz, refoga o feijão com toucinho, rasga alface, toma café; mas não deixa de olhar os meninos atentados da janela da cozinha. Conversas que se atropelam, mas todo mundo entende o assunto de todos. Homens reunidos perto da churrasqueira reclamando da escalação, outro piadista sem noção, conta piadas de que ninguém acha graça e outro que do nada “seu time não tem mundial”. Pronto. Confusão armada.

Lá fora as crianças divididas em times, meninas contra meninos, estratégias sendo elaboradas. É questão de honra: os meninos não podem mais perder para elas. Bruxas. É questão de honra: os meninos não podem vencer. Idiotas. Cada grupo sai para o esconderijo perfeito — exceto Danilo, que abandona a estratégia dos primos sem avisar e vai para o quintal dos fundos, como se soubesse que havia algo lá.

A avó, alheia ao barulho lá de dentro da casa, observa a criançada brincando, atenta. Ri das estratégias infantis, enquanto tece seu crochê. De relance vê uma figura pequenina, conjuntinho de short e blusa rosa, laço de fita rosa, uma boneca de pano na mão, ela está olhando da cerca da vizinha para a senhora e para as crianças.


A menina abraça uma boneca de pano junto ao peito de forma a protegê-la. A avó, percebendo a insegurança e o desejo da garotinha em participar da brincadeira, incentiva a aproximação com um aceno de mão.

— Entre. — diz baixinho, apontando o dedo. — Vá brincar. Fique perto da Aninha, ela está atrás da árvore. Vá antes que a vejam.

A menina olha para trás e vê um garoto a olhar para todos os cantos. Precisava agir rápido. Agacha-se atrás de um arbusto. Momento que o menino olha para o banco onde a avó está tricotando seu crochê. Depois que ele vira, ela olha de novo para a senhora concentrada fazendo seu crochê ao mesmo tempo que olha para todos. Como consegue? Coisa de velho.

 Chega no local onde tem uma menina de vestido amarelo rodado, com laços amarrados em duas maria-chiquinhas. Ela estava atenta à dinâmica do jogo. Mas quando a menina se aproximou, Aninha olhou e com seu sorriso sem dois dentinhos disse animada.

— Oi, como você se chama? Vai ser minha dupla? Que boneca legal.

— Oi, eu sou a Renatinha... mas me chamam de Ratinha porque sou pequena e corro rápido... essa é a Cloe. Estende a boneca de pano para Aninha pegar.

Aninha pega toda encantada a boneca de pano e coloca debaixo do braço e depois abraça-a como se a cumprimentasse.

— Olha Ratinha, a gente tem que chegar naquela goiabeira antes que o Danilo nos encontre, está bem? Veja, a Débora está conseguindo avançar com a Tainá.

— Certo... então quando ele for para os fundos a gente avança para atrás da caixa d’água e depois a gente corre e bate o pique. Me dá a Cloe, ela fica com medo. — diz ansiosa.

— Eu te devolvo lá no pique, tá bom? Toma aqui meu pirulito... é de morango.

Tira da boca e entrega à menina, que o pega sem titubear e coloca na boca saboreando.

— É bom, né?

Renatinha acena a cabeça concordando. Ela observa Aninha com atenção e às outras meninas...

— Nossa que vestidos legais, os vestidos de vocês. Vou pedir para mamãe comprar para mim também. — diz a Renatinha.

Aninha a olha por um instante com um sorriso, acena concordando.

Mais duas crianças conseguem passar por elas e correr para o pique.

Renatinha se levanta. Aninha a puxa de volta, mas Danilo a vê e vem correndo.

— Não é o momento. Me dá meu pirulito de volta e segura a Cloe.

Elas trocam. Aninha chupa o pirulito, Renatinha abraça a boneca.

Uma dupla de meninas para perto delas.

Renatinha começa a sentir uma comichão na garganta. Tosse.

Danilo grita:

— Ei... pode sair, eu vi você.

Ela se contorce. Segura a Cloe com uma mão enquanto a outra ela estende para a mulher do banco, que se levanta e vai a seu encontro.

— Ei! Eu vi você! Vou bater no pique! — Danilo diz correndo para onde está o pique.

— Acalme-se, Renatinha, vai passar. — diz a Senhora, segurando a menina. Renatinha paralisada, sente o corpo leve, entrando em uma espiral luminosa e depois apenas terra. Tenta piscar os olhos e não consegue.

Aninha a pega. Olha em seus olhos e diz:

— Vovó... eu tenho a boneca mais linda de todas. Veja que agora os olhos piscam. Abraça a boneca e ri, mostrando para as outras meninas.

Danilo grita:

— Pique... aquela menina de rosa eu a vi primeiro!

A mãe lhe grita:

— Danilo, o que está fazendo aqui no quintal? Seus primos estão lá na frente!! Eu te disse para parar... Segura seu braço e puxa-o para dentro. — Essas suas amigas imaginárias de novo, Danilo?

Danilo, se sentindo incompreendido, argumenta o óbvio para ele:

— Mãe, mas a avó está aqui!!

— Deixa de besteira, menino, ela já morreu faz tempo! — Entra com Danilo, que aponta para elas andando para o fundo do quintal.

Do outro lado da cerca, escuta-se a voz de uma mãe desesperada:

— Renatinha? Cadê você minha filha!!! Renatinha?

A mãe de Renatinha olha bem atenta o quintal da vizinha, mas as crianças estavam todas lá na frente.

A mãe desesperada intercepta a mãe de Danilo, que já começava a fechar a porta:

— Ei... você viu minha filha aqui? Ela está vestida de rosa...

A mãe nega, fechando a porta. Não podia deixar que o filho passasse por esquisito.

A aflita mãe observa o quintal vizinho em desespero. Mas não há nada... só silêncio e agora vazio.

Corre para dentro gritando o desaparecimento da filha. Portas se abrem e fecham batidas. Vizinhos e parentes começam a procurar:

— Renatinha... ratinha... a mamãe está preocupada... onde está você? Estou com seu pirulito de morango preferido...

Enquanto isso, a gentil senhora recolhe a bolsa de crochê, acomoda-a no ombro e chama as garotas:

— Vamos meninas, segurem firmes as bonecas.

E saem andando até os fundos do quintal... 
                                                                      ...onde desaparecem... 
                                                                                                            ...como nuvem.

****************************************


Apoie os autores independentes

© 2026 @cqduarte_autora — Todos os direitos reservados. Proibida reprodução sem autorização.




Nenhum comentário:

Postar um comentário