A COLECIONADORA -
Nem toda brincadeira tem fim
As manhãs de domingo são as
melhores da semana, porque todos os primos e primas estão reunidos na casa dos
avós. É fofoca feminina em dia, enquanto corta frango, aperta o arroz, refoga o
feijão com toucinho, rasga alface, toma café; mas não deixa de olhar os meninos
atentados da janela da cozinha. Conversas que se atropelam, mas todo mundo
entende o assunto de todos. Homens reunidos perto da churrasqueira reclamando da
escalação, outro piadista sem noção, conta piadas de que ninguém acha graça e
outro que do nada “seu time não tem mundial”. Pronto. Confusão armada.
Lá fora as crianças divididas em
times, meninas contra meninos, estratégias sendo elaboradas. É questão de honra:
os meninos não podem mais perder para elas. Bruxas. É questão de honra:
os meninos não podem vencer. Idiotas. Cada grupo sai para o esconderijo
perfeito — exceto Danilo, que abandona a estratégia dos primos sem avisar e vai
para o quintal dos fundos, como se soubesse que havia algo lá.
A avó, alheia ao barulho lá de
dentro da casa, observa a criançada brincando, atenta. Ri das estratégias infantis,
enquanto tece seu crochê. De relance vê uma figura pequenina, conjuntinho de
short e blusa rosa, laço de fita rosa, uma boneca de pano na mão, ela está olhando
da cerca da vizinha para a senhora e para as crianças.
A menina abraça uma boneca de
pano junto ao peito de forma a protegê-la. A avó, percebendo a insegurança e o
desejo da garotinha em participar da brincadeira, incentiva a aproximação com um
aceno de mão.
— Entre. — diz baixinho,
apontando o dedo. — Vá brincar. Fique perto da Aninha, ela está atrás da
árvore. Vá antes que a vejam.
A menina olha para trás e vê um
garoto a olhar para todos os cantos. Precisava agir rápido. Agacha-se atrás de
um arbusto. Momento que o menino olha para o banco onde a avó está tricotando
seu crochê. Depois que ele vira, ela olha de novo para a senhora concentrada fazendo
seu crochê ao mesmo tempo que olha para todos. Como consegue? Coisa de
velho.
— Oi, como você se chama? Vai ser
minha dupla? Que boneca legal.
— Oi, eu sou a Renatinha... mas
me chamam de Ratinha porque sou pequena e corro rápido... essa é a Cloe. Estende
a boneca de pano para Aninha pegar.
Aninha pega toda encantada a
boneca de pano e coloca debaixo do braço e depois abraça-a como se a cumprimentasse.
— Olha Ratinha, a gente tem que
chegar naquela goiabeira antes que o Danilo nos encontre, está bem? Veja, a
Débora está conseguindo avançar com a Tainá.
— Certo... então quando ele for
para os fundos a gente avança para atrás da caixa d’água e depois a gente corre
e bate o pique. Me dá a Cloe, ela fica com medo. — diz ansiosa.
— Eu te devolvo lá no pique, tá
bom? Toma aqui meu pirulito... é de morango.
Tira da boca e entrega à menina,
que o pega sem titubear e coloca na boca saboreando.
— É bom, né?
Renatinha acena a cabeça
concordando. Ela observa Aninha com atenção e às outras meninas...
— Nossa que vestidos legais, os vestidos
de vocês. Vou pedir para mamãe comprar para mim também. — diz a Renatinha.
Aninha a olha por um instante com
um sorriso, acena concordando.
Mais duas crianças conseguem
passar por elas e correr para o pique.
Renatinha se levanta. Aninha a
puxa de volta, mas Danilo a vê e vem correndo.
— Não é o momento. Me dá meu
pirulito de volta e segura a Cloe.
Elas trocam. Aninha chupa o pirulito,
Renatinha abraça a boneca.
Uma dupla de meninas para perto
delas.
Renatinha começa a sentir uma
comichão na garganta. Tosse.
Danilo grita:
— Ei... pode sair, eu vi você.
Ela se contorce. Segura a Cloe
com uma mão enquanto a outra ela estende para a mulher do banco, que se levanta
e vai a seu encontro.
— Ei! Eu vi você! Vou bater no
pique! — Danilo diz correndo para onde está o pique.
— Acalme-se, Renatinha, vai
passar. — diz a Senhora, segurando a menina. Renatinha paralisada, sente o
corpo leve, entrando em uma espiral luminosa e depois apenas terra. Tenta piscar
os olhos e não consegue.
Aninha a pega. Olha em seus olhos
e diz:
— Vovó... eu tenho a boneca mais
linda de todas. Veja que agora os olhos piscam. Abraça a boneca e ri, mostrando
para as outras meninas.
Danilo grita:
— Pique... aquela menina de rosa
eu a vi primeiro!
A mãe lhe grita:
— Danilo, o que está fazendo aqui
no quintal? Seus primos estão lá na frente!! Eu te disse para parar... Segura
seu braço e puxa-o para dentro. — Essas suas amigas imaginárias de novo,
Danilo?
Danilo, se sentindo
incompreendido, argumenta o óbvio para ele:
— Mãe, mas a avó está aqui!!
— Deixa de besteira, menino, ela
já morreu faz tempo! — Entra com Danilo, que aponta para elas andando para o
fundo do quintal.
Do outro lado da cerca, escuta-se
a voz de uma mãe desesperada:
— Renatinha? Cadê você minha
filha!!! Renatinha?
A mãe de Renatinha olha bem
atenta o quintal da vizinha, mas as crianças estavam todas lá na frente.
A mãe desesperada intercepta a
mãe de Danilo, que já começava a fechar a porta:
— Ei... você viu minha filha
aqui? Ela está vestida de rosa...
A mãe nega, fechando a porta. Não
podia deixar que o filho passasse por esquisito.
A aflita mãe observa o quintal
vizinho em desespero. Mas não há nada... só silêncio e agora vazio.
Corre para dentro gritando o
desaparecimento da filha. Portas se abrem e fecham batidas. Vizinhos e parentes
começam a procurar:
— Renatinha... ratinha... a mamãe
está preocupada... onde está você? Estou com seu pirulito de morango
preferido...
Enquanto isso, a gentil senhora recolhe
a bolsa de crochê, acomoda-a no ombro e chama as garotas:
— Vamos meninas, segurem firmes
as bonecas.
- CHAPEUZINHO RED E O LOBO MAU - https://www.arquivodoimaginario.com/2026/04/versao-dos-fatos-chapeuzinho-red_18.html
- ANAHI - https://www.arquivodoimaginario.com/2026/04/anahi.html
- TODA HISTÓRIA TEM UMA SOMBRA - https://www.arquivodoimaginario.com/2026/05/toda-historia-tem-uma-sombra.html
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